Olney São Paulo, uma ausência de quase meio século que não pode ser esquecida

Como um peregrino, ele caminhou com sua câmera — nada portentosa — e começou a fazer aquilo que gostava de assistir. E conseguiu. Documentários, curtas, médias e longas-metragens passaram a ocupar a vida do jovem bancário, que brindaria as telas brasileiras com Um Crime na Rua, O Forte, Os Ciganos do Nordeste e Manhã Cinzenta, entre outras obras nas quais empregou técnica, criatividade e arrojo. Tornou-se um nome nacional e só não fez mais porque a vida o limitou a 41 anos de idade. Mas Olney São Paulo está na história do cinema brasileiro.

Oriundo de Riachão do Jacuípe, Olney São Paulo foi um jovem idealista que não se limitou a sonhar. Soube transformar ideias e projetos em obras reais, conduzindo-se de forma brilhante no trajeto de vida que desejava. Apaixonado pelo cinema, era presença constante nas salas de exibição em Salvador e Feira de Santana, onde se criou desde garoto — para ele, um universo em comparação à sua terra natal. Aqui, pôde exercitar o pensamento que insistia em seguir no então difícil e acidentado caminho da sétima arte, percorrido por poucos — e isso bem além dos limites da Princesa do Sertão.

Estudante, bancário — era funcionário do Banco do Brasil — mas cineasta por vocação, Olney enveredou pela arte com os primeiros movimentos em torno da ficção/realidade proporcionada pelo cenário de beleza agreste do sertão baiano, que ele tanto conhecia por a ele pertencer. No momento inicial, seguiu os caminhos do Cinema Novo, alinhado ao grupo do Ciclo Baiano, que reunia Orlando Senna, Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Luís Paulino Santos, Roberto Pires, entre outros. A atuação de Olney teve início a partir de sua incorporação à equipe que produziu o filme internacional Rosa dos Ventos, com uma etapa filmada em Feira de Santana, sob a direção de Alex Viany.

Um Crime na Rua, realizado em 1955, quando ele tinha 19 anos — uma espécie de documentário baseado em um fato policial, com duração de 10 minutos — teve como cenário básico a feira livre da Cidade Princesa. É considerado o passo inicial de Olney, que depois teria uma brilhante caminhada, especialmente em 1960, ao lado de Nelson Pereira dos Santos na película Mandacaru Vermelho, e em 1963, como assistente de direção de Oscar Santana em O Caipora. Todavia, deixaria seu nome cravado no cinema nacional a partir de 1964, quando concluiu com êxito, no distrito de Bonfim de Feira, a filmagem de O Grito da Terra, baseado no romance homônimo de Ciro de Carvalho Leite, lançado no mesmo ano no extinto Cine Santanópolis, que ficava na Avenida Senhor dos Passos — espaço hoje ocupado pelas Lojas Americanas.

“Meu filme é um depoimento da realidade subdesenvolvida do homem rural brasileiro”, conjecturava o cineasta, conhecedor dessa realidade que retratava por meio de suas câmeras. Após a conclusão do trabalho, no entanto, não pôde universalizá-la como pretendia. O filme não chegou a ser integralmente exibido. “Foi cortado pela censura, sabotado pelos exibidores, debatido, amado, esnobado”, relata o jornalista especializado em cinema Dimas Oliveira, em artigo publicado na revista Cultura e Artes Plásticas em Feira de Santana. Em 1967, Olney obteve junto ao Banco do Brasil sua transferência para o Rio de Janeiro.

O arrojo do jovem cineasta, disposto a exibir nas telas a verdade enfrentada pelo povo brasileiro durante o governo militar — o que foi feito por meio do média-metragem Manhã Cinzenta — resultou na condenação de sua obra, considerada subversiva, assim como ele, que teve sua liberdade de cidadão extirpada, sendo condenado à prisão por suposta e infundada participação no sequestro de um embaixador norte-americano, passageiro de um avião desviado para Cuba.

Olney, que no momento do episódio estava no Chile, apresentou-se espontaneamente às autoridades brasileiras, mas foi preso e torturado, cumprindo um penoso exílio social que poderia ter se prolongado, não fossem as vozes de verdadeiros amigos com influência junto ao poder que comandava os destinos do país. Mas os estragos em sua saúde não foram poucos.

Na década de 1970, Olney São Paulo desenvolveu amplo trabalho, concretizando várias obras cinematográficas em ritmo acelerado. Foi então que pôde mostrar todo o seu potencial, dirigindo Cachoeira, Documento de uma História, enfocando a presença da “Cidade Histórica” do Recôncavo Baiano na luta pela independência da Bahia. Ressaltou também a importância do pintor feirense Raimundo Falcão de Oliveira no filme O Profeta de Feira de Santana. Outra relevante produção foi Como Nasce Uma Cidade, de 1973, tendo como tema o centenário de Feira de Santana.

Sob os Ditames de Rude Almajesto e Os Ciganos do Nordeste — este exibido pela TV Globo — foram outros trabalhos de Olney, que ainda produziu o longa-metragem O Forte, baseado no romance de Adonias Filho, e Pinto Vem Aí, um interessante documentário sobre a expectativa do retorno do deputado federal Francisco Pinto à cidade. Olney produziu diversos documentários. A película Dia de Erê não chegou a ser concluída por ele, mas foi finalizada por outros cineastas. Dois de seus projetos não foram realizados: um inspirado em obra de Adonias Filho; o outro, baseado na vida de Lucas da Feira, personagem que sempre despertou o interesse do cineasta, que também participou de O Amuleto de Ogum — filmado em Feira de Santana — e Azyllo Muito Louco, ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos.

Olney São Paulo faleceu em 15 de fevereiro de 1978, no Hospital da Beneficência Portuguesa, no Rio de Janeiro, vítima de parada cardíaca. Tinha apenas 41 anos de idade — portanto, muito jovem em relação a tudo o que fez com poucos recursos técnicos e financeiros disponíveis, e ao que ainda pretendia e poderia fazer, justamente quando seu crescimento no cinema nacional estava consolidado.

Seu trabalho, no entanto, não perdeu relevância com o passar do tempo. Permanece como marco de uma época enfrentada com coragem pelo povo brasileiro, especialmente por jovens como ele, que fizeram da arte sua arma na luta contra a ditadura.

Por Zadir Marques Porto

Fonte: Prefeitura de Feira de Santana

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