
Ir ao cinema significava um passeio, sair deslocando-se, prazerosamente, até a casa de espetáculos para viver os sonhos propiciados por Hollywood. Sem a televisão e outros recursos modernos, a ‘tela grande’ representava um refúgio, ou uma fuga do cotidiano de poucas opções, mas também, de pouco receio. Podia-se andar nas ruas da cidade tanto às 10 horas como à meia-noite, ou às 2 horas da madrugada. Talvez durante o dia fosse mais perigoso. Um ciclista com o veículo sem freio, ou um boi escapado do campo do gado podiam provocar um acidente. Final da década de 1950, início dos anos 60, Feira de Santana, com uma população urbana pouco superior a 60 mil habitantes, ‘dormia de portas abertas’.
O cinema era, juntamente com o futebol, o lazer ou a ‘distração’, como se dizia, dos jovens. O Cine Iris, já quase no final da Avenida Senhor dos Passos, confluência com a Rua Carlos Gomes, era o preferido da gurizada – estabelecendo-se a faixa etária até os 16 anos nas matinês dominicais, já que as sessões noturnas eram reservadas ao público adulto. Os filmes de farwest (ou faroeste) agitavam a meninada e transformavam a porta do Cine Iris em um impressionante movimento de compra, troca e venda de revistas de quadrinhos. Roy Rogers, Rocky Lane, Monte Hale, Gene Autry, Reis do Faroeste, Ai Mocinho, Fantasma, Tarzan, Batman, eram como pepitas de ouro nas mãos da meninada. Depois do Iris surgiu o Cine Santanópolis, igualmente na Avenida Senhor dos Passos, ao lado da Prefeitura Municipal, com uma programação talvez mais seleta e voltada para o público adulto.
Depois surgiu o Cine Madrid na Rua Castro Alves, com uma programação mais atualizada com películas que atraíam a estudantada que vivia uma época de sonhos e romantismo. O Madrid era de dimensões menores que o Iris e o Santanópolis e não oferecia grande conforto, mas compensava com boa programação. Todavia, fora desse circuito do centro da cidade e talvez por isso com menos olhares dos adeptos da sétima arte, estava o Cine Plaza, uma espécie de ‘primo pobre’ renegado a uma posição de menor destaque, mas que, nas sessões noturnas das segundas-feiras, brindava o público com boas películas, algumas já exibidas em outras casas.
Aparentemente despercebido de muitos, o Plaza, na sua modéstia, exibia bons policiais, aventuras, musicais e filmes de guerra, atendendo bem a uma faixa da população mais identificada com esses gêneros. Nas sessões noturnas das segundas-feiras, era boa a presença de público que ao deixar a sala de projeções demonstrava satisfação. Filmes como o Semeador de Felicidade, com o famoso pianista Liberace, marcaram a história do Plaza, que ficava na Rua de Aurora, a mesma Rua Desembargador Felinto Bastos e onde, pouco tempo depois da extinção do cinema, passou a funcionar a Rádio Sociedade de Feira até 1965, quando a emissora foi transferida para a sede própria, nos bairros dos Capuchinhos.
O Cine Plaza não aparece nos relatos sobre os cinemas de Feira de Santana, ou da época de ouro de Hollywood que levava multidões às casas de espetáculos para acompanhar grandes atores e atrizes que encantavam o mundo na interpretação de difíceis papéis e pela vida ostentosa e em muitos casos escandalosa, fora das telas. Como tudo na vida, o Plaza passou, mas vale lembrá-lo como parte da vida da cidade há seis décadas atrás. Bem próximo à Praça da Rua de Aurora e da sede do TG-17 (Tiro de Guerra), o Cine Plaza contribuiu na oferta de entretenimento para boa parte da população.
Por Zadir Marques Porto




