
Aos 11 anos de idade, ele leu o primeiro cordel “A intriga do cachorro com o gato”, do pernambucano Zé Pacheco, e não parou mais, tornando-se, além de cordelista e poeta, um dos maiores declamadores do país. Francisco Pedrosa Galvão, ou Chico Pedrosa, é um nordestino simples e meio calado, como se guardasse as palavras para a poesia que desabrocha rica e metrificada, como uma resposta exata em uma prova de Português.
Em 1948, aos 11 anos de idade, o paraibano de Guarabira, Chico Pedrosa, ganhou do pai, o famoso repentista Avelino Pedrosa Galvão, o primeiro folheto de cordel — e ali descobriu seu mundo. Morava na Fazenda Pau Amarelo, trabalhando na agricultura, e, aos 18 anos, apareceu um anúncio contratando homens para trabalhar no Triângulo Mineiro. Em cima de um caminhão, ele viajou ao lado de outros rapazes até Ituiutaba, Minas Gerais. Foram nove meses de trabalho, dormindo quase ao relento, com péssima alimentação e proibido de sair da fazenda. “Havia um segurança com um fuzil bem em frente ao galpão!”
Era um trabalho escravo e, ao final de nove meses, ao ser dispensado, além de nada receber, ainda estava devendo ao fazendeiro — um poderoso coronel — a comida consumida! “Tive que trabalhar mais três meses em outra fazenda para pagar o que estava devendo e poder retornar a Guarabira.” Todavia, seu maior sofrimento foi saber que sua mãe, Ana Moreira da Cruz, havia falecido. “Eu fui para o Triângulo Mineiro com o sonho de ganhar dinheiro para dar uma vida melhor à minha mãe.” E lamenta ainda mais porque escrevia para dona Ana e, como não podia sair da fazenda, entregava a correspondência aos donos da propriedade, que prometiam colocá-la nos Correios, mas a destruíam!
Esse cruel sofrimento inspirou o jovem Chico Pedrosa a escrever, em 1952, “Os sofrimentos dos nordestinos no Triângulo Mineiro”, livro publicado por Joaquim Batista de Sena, com enorme repercussão e venda na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e demais estados da região. Foi o pontapé inicial que já rendeu mais de 300 cordéis, seis CDs, um DVD, nove livros e centenas de palestras e declamações em milhares de cidades brasileiras. “Até o momento só não fui ao Acre, Rondônia, Amapá e Amazonas”, diz, mas isso não deve demorar, porque ele cumpre permanente roteiro de viagens atendendo convites de todas as regiões.
Pedrosa não gosta de apontar seu melhor livro ou trabalho, por vê-los como verdadeiros filhos, mas observa que o cordel “A Briga na Procissão” foi transformado em peça teatral, já apresentada fora do Brasil, e há quem pense em levá-lo para a grande tela — o cinema. Seu último cordel, “Lua Luar do Sertão”, é uma homenagem a Luiz Gonzaga. Desde 1967, esse talentoso poeta e declamador está radicado em Feira de Santana com a esposa, dona Terezinha, e os filhos Flávio e Francisco Carlos. “Vim a Feira pela primeira vez em 1959 e me apaixonei. Em 1967 cheguei para ficar. São 58 anos!”, diz.
Quando não está viajando para apresentações pelo país, é fácil vê-lo no Mercado de Arte Popular (MAP), no espaço do cordel do folheteiro e cordelista Jurivaldo Alves. Tranquilo, Chico Pedrosa garante que é um homem realizado, mas com uma tristeza no fundo do coração — lembrando que foi para o Triângulo Mineiro para trabalhar e dar melhor condição de vida à sua mãe, Ana Moreira da Cruz, o que não pôde fazer na época. Ainda pensa em homenageá-la, de forma póstuma, em Serraria, onde ela nasceu, no Sítio Araçá, na Paraíba. “Aí, então, estarei de fato realizado!”, conclui.
Por Zadir Marques Porto




