
Havia festa com banda de música, havia flores, e a população acorria até a antiga estação ferroviária, próxima ao atual Feiraguai, para recepcionar os passageiros. O trem era sinal de progresso e alegria. Mas, em 1964, depois de ter construído uma moderna estação ferroviária na parte leste da cidade, para ampliar a área de atuação da linha Feira/Alagoinhas, o governo federal desativou o sistema. Agora, há uma expectativa otimista.
Com as recentes notícias referentes ao projeto do governo estadual de implantar uma moderna ligação ferroviária entre Salvador, capital baiana, e Feira de Santana, a segunda cidade mais importante do estado, reacende-se a expectativa da comunidade regional de poder contar com esse importante modal de transporte terrestre, tão utilizado em países da Europa e do Oriente. Na verdade, embora sem a modernidade atual, a população da Cidade Princesa já dispôs desse sistema, que deu forte contribuição ao processo desenvolvimentista do município.
Em 1873 – 152 anos atrás -, com a população estimada em 14 mil habitantes, majoritariamente fixada na zona rural, Feira de Santana passava a contar com linha férrea que garantia o deslocamento de passageiros para a cidade de São Félix, passando pelas estações de Magalhães (São Gonçalo dos Campos), Belém (Cachoeira) e São Félix. O cavalo ainda era o meio mais usado para o deslocamento de pessoas, e a chegada do ‘cavalo de ferro’, como o trem era chamado pelos índios do Velho Oeste norte-americano, mudou bastante o cenário regional. Interessante que o sistema ferroviário chegou à Terra de Senhora Santana 19 anos após a inauguração da primeira estrada de ferro do Brasil, em 1854, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, construída pelo visconde e barão de Mauá (o gaúcho Irineu Evangelista de Souza).
Nesta cidade, a estação ferroviária foi edificada nas imediações da Igreja Matriz, hoje Catedral de Senhora Santana, impulsionando aquela área e gerando a construção de moradas, inclusive para abrigar famílias de ferroviários que precisavam estar o mais próximo possível do local de trabalho devido ao rigor dos horários de saída e chegada do trem. A ferrovia, como todas as novidades da época, teve enorme impacto no cotidiano regional, conferindo à antiga vila maior importância, depois de ser emancipada do município de Cachoeira 40 anos antes da chegada do trem.
O uso do veículo sobre trilhos era estimulado pelo orgulho do cidadão. Era até pomposo alguém dizer que era usuário do sistema, que era passageiro. Uma espécie de elevação do nível social ou status. Diariamente, era grande a presença de pessoas na estação para ver a chegada de moradores da cidade e visitantes, muitos deles alvo de ruidosas manifestações de congratulações. No caso de autoridades ou alguém de prestígio, era comum a presença de uma filarmônica (banda de música) executando dobrados, hinos, valsas e polcas. Era a demonstração pública de satisfação e alegria.
Em 1952, Feira de Santana, já com mais de 150 mil habitantes, recebia orgulhosamente o Cardeal Dom Augusto Alves da Silva, que desembarcava com sua comitiva da Motriz (um trem especial) e recebia uma maciça manifestação de acolhida da comunidade católica, fato que entrou para a história da Cidade Princesa pela sua relevância. Com o notável desenvolvimento do município e a consagração como polo de atração regional, o transporte ferroviário parecia absolutamente indispensável, associando-se ao rodoviário na movimentação de passageiros e cargas, tanto assim que o governo federal logo projetou uma moderna estação, bem distante da até então existente.
A gare original, instalada na posterior Praça Presidente Médici e hoje Feiraguai (sudeste da cidade), deu lugar a uma moderna construção, com uma enorme área ao redor para as manobras das máquinas e uma espécie de vila (várias casas) para funcionários da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro. A nova gare originou o bairro Estação Nova e um comércio ao céu aberto, hoje sucedâneo da grande feira livre no centro da cidade, mas não chegou a ser utilizada como fora projetado para ligar Feira de Santana ao município de Alagoinhas.
Em 1964, já sob o governo militar, o Ministério dos Transportes, sem qualquer explicação, encerrou o ciclo ferroviário em Feira de Santana. O prédio da estação ficou inativo durante algum tempo, depois serviu a algumas instituições. Também havia algumas casas para ferroviários e suas famílias. Com o abandono verificado no terreno, foram feitas diversas construções no local. A grande gleba para manobras das máquinas também ficou sem qualquer utilidade. Ali surgiram campos de futebol e até o Estádio Gilson Porto, construído pela Prefeitura para o esporte amador. Portanto, há 61 anos Feira de Santana não conta com transporte ferroviário.
Por Zadir Marques Porto



