
Discussões, divergências, mudanças, aproximações, “traições”, tudo isso faz parte da política, ou do cenário político. Mas esse território onde especulações e decisões são constantes e nem sempre positivas como esperadas também é pontilhado de registros curiosos e engraçados, alguns até mesmo marcados pelo bom humor, capaz de superar barreiras e bandeiras ideológicas.
Tida como a arte de governar e administrar, dentre outras inúmeras definições, a política também pode propiciar um amplo universo de fatos e eventos, notadamente quando se trata de agremiações partidárias envolvidas em disputas eleitorais. Cada município tem as suas peculiaridades no campo político e figuras expressivas ou não, mas sempre presentes ao cenário cuja dinâmica depende exatamente delas. Há os circunspectos, sisudos, os descontraídos, brincalhões, os desligados, como há em qualquer outro segmento da sociedade humana.
E essa diversidade tão natural propicia momentos interessantes e até hilários, quebrando a rigidez imposta quando das disputas políticas. Década de 1970: um jovem jornalista/radialista, em busca de uma boa matéria, dirige-se ao professor Humberto Mascarenhas, intelectual, educadíssimo, de largo relacionamento na cidade, no que pese a militância política no Partido Comunista, na época ainda visto com reserva por alguns.
Com a bondade e sapiência de um filósofo, o professor Humberto Mascarenhas, que ocupava um cargo na administração municipal, mantinha a entrevista em ótimo nível e o repórter, buscando fechá-la de forma positiva, questionou: “Excelência, o senhor é comunista, dizem que antigamente comunista comia criancinhas, e agora?” E Humberto, sem titubear: “Agora, meu filho, eu como tudo!”.
Reunião importante da Câmara Municipal de Feira de Santana. Em pauta, a extinção do feriado de São Pedro ou a sua substituição pelo Dia de Senhora Santana, padroeira do Município, que ainda não estava cravado no calendário oficial de Feira de Santana.
O Legislativo da Cidade Princesa, ainda sem sede própria, funcionava no edifício sede do INSS, na Rua Sales Barbosa — em frente à Praça Bernardino Bahia. Matéria colocada em votação, verificando-se positiva a proposição entre os primeiros votantes. Chega o momento do voto de Hermes Sodré, emedebista sólido, compatível com a sua estrutura física. Chamado de “Marechal Hermes” e estimado por todos, independente de cor partidária, o vereador católico “empacou” em busca de argumento.
Começou observando que “Deus quando veio ao mundo botou todos os santos e voltou faturando um por um!”. Houve risos, interrompidos pelo presidente da Casa, que pediu o voto do “marechal”, e ele, encabulado, prosseguiu: “Eu me dou bem com todos os santos e me dou bem com São Pedro, como é que eu vou ficar com ele agora?”. E, sem outra saída, seguiu a maioria votando pela substituição do feriado de São Pedro pelo Dia de Senhora Santana.
Concluído o estudo universitário em Salvador, onde também atuou como noticiarista das rádios Cultura e Sociedade da Bahia, o pernambucano Messias Gonzaga retornou a Feira de Santana e, bem-falante e trabalhador, decidiu ser candidato a vereador pelo PC do B. Eleito com mérito, desencadeou verdadeira guerra política contra o advogado José Falcão da Silva, prefeito de Feira de Santana, com estudos no Seminário Menor de São José em Salvador, habilidoso nas palavras e nas atitudes, com tiradas de filósofo, que encarava as escaramuças do jovem e atuante edil com tranquilidade. Executivo e Legislativo reunidos na Prefeitura Municipal, parecia momento ideal, o cenário propício para uma reconciliação — ou, na verdade, uma aproximação — assim deve ter pensado o saudoso vereador Dival Figueiredo Machado.
De aparência “enfezada”, mas cordial e respeitoso, o líder político do distrito de Ipuaçu, direitista declarado, pega Messias Gonzaga amigavelmente e o conduz até a cabeceira da longa mesa onde, na postura de chefe de governo municipal, José Falcão dialogava com outra liderança política que, ao vê-los, interrompe a conversa. Dival Machado aproveita: “Falcão, esse aqui é o vereador Messias Gonzaga, é o Messias”. E o prefeito José Falcão, virando-se e encarando o vereador com a sua fleuma habitual: “Mas não é o esperado e desejado” (alusão a Jesus). Todos riram, inclusive Messias Gonzaga, deixando o ambiente ainda mais cordial.
Candidato a deputado estadual, o advogado e jornalista Hugo Navarro, a todo instante, recebia eleitores em seu escritório anexo ao jornal Folha do Norte. Como sempre ocorre no período pré-eleitoral, os pedidos eram muitos e variados. Uma senhora insistia no pedido de “uns postes para minha rua”, e o advogado repetia que ela deveria se dirigir à empresa responsável pelo setor. “Mas, doutor, eu preciso dos postes”, continuava a eleitora, e Hugo Navarro, já cansado de argumentar, chamou-a até a porta do jornal: “A senhora quer uns postes? Tirando aquele ali em frente à minha casa, a senhora pode levar todos”. Evidente que a eleitora deixou o local rapidamente! O jornalista se elegeu, mas é pouco provável que tenha contado com o voto dela!
Por Zadir Marques Porto




