

Foto: © Kyodo via Reuters
Tetsuya Yamagami, acusado de ter assassinado a tiros o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe durante um comício na cidade de Nara, em 2022, foi condenado à prisão perpétua por um tribunal japonês nesta quarta-feira (21).
A sentença foi proferida pelo juiz Shinichi Tanaka, que considerou que o réu agiu de forma premeditada, ao “esperar por uma oportunidade, escolher o momento e atingir a vítima com uma arma”.
Na sua avaliação, tratou-se de “um ato desprezível”, igualmente “malicioso” para a “multidão de pessoas” que assistiu o incidente.
Tetsuya Yamagami disparou contra o ex-líder japonês à luz do dia, enquanto ele discursava em um comício da campanha eleitoral para a Dieta do Japão (equivalente ao Congresso Nacional no Brasil), em uma rua da cidade de Nara, no dia 8 de julho de 2022.
O homem, que à época tinha 41 anos, foi detido no local do crime.
O agressor atingiu Shinzo Abe no pescoço com uma arma improvisada, feita por dois tubos de metal com cerca de 40 centímetros. O antigo primeiro-ministro morreu poucas horas depois.
Shinzo Abe foi primeiro-ministro entre 2006 e 2007 e novamente de 2012 a 2020, tendo renunciado ao cargo nesse mesmo ano por motivos de saúde.
O político conservador foi o chefe de Governo com o mandato mais longo da história do Japão, por muitos considerado o último período de estabilidade política no país.
Mesmo após retirar-se da Dieta do Japão, o nome de Abe continuava a ressoar no panorama político, sendo nesse contexto que discursava na manhã da sua morte.
O caso abalou o país, não só pela violência armada, fenômeno raro no Japão, mas também pelas ligações intrínsecas entre uma seita religiosa e a política japonesa que o caso revelou.
Tetsuya Yamagami foi motivado por uma situação familiar e por um ressentimento em relação à Igreja da Unificação, conhecida como Seita da Lua ou Moonies.
A mãe do assassino condenado teria doado cerca de 100 milhões de ienes (aproximadamente 850 mil euros à época) para esta Seita, anos antes.
Essas despesas levaram a família à falência e, em 2025, Yamagami tentou tirar a própria vida. A morte do irmão, dez anos antes, foi considerada suicídio.
Durante o julgamento, um dos advogados afirmou que o réu “começou a pensar que toda a sua vida tinha sido arruinada” pela Igreja da Unificação.
Shinzo Abe era um aliado da seita religiosa, com quem mantinha relações de influência.
No início do julgamento, a acusação declarou que o arguido “pensou que, se matasse alguém tão influente quanto o ex-primeiro-ministro Abe, poderia atrair a atenção pública para a Igreja [da Unificação]”.
A investigação do caso revelou que a Igreja tinha várias pessoas trabalhando para Abe, bem como para outros políticos do conservador Partido Liberal Democrata (PLD).
No mesmo mês do assassinato do ex-chefe de Governo, foi publicada uma lista de 111 membros do Parlamento japonês que tinham ligações com a Igreja, pelo tabloide japonês Nikkan Gendai. Na época, quatro ministros renunciaram aos seus cargos.
Em setembro de 2022, o PLD informou que quase metade dos seus 379 parlamentares admitira algum tipo de contacto com a Igreja da Unificação.
Mais tarde, de acordo com uma investigação conduzida pelo The Asahi Shimbun, soube-se que também 290 membros das assembleias legislativas de províncias, bem como sete governadores, mantinham relações com a organização.
Em abril do ano passado, um tribunal ordenou a dissolução da filial japonesa da Igreja da Unificação, por “danos sem precedentes” causados à sociedade japonesa.
O incidente levou ao endurecimento das leis sobre armas no Japão em 2024, que passaram a incluir penas de até um ano de prisão para quem divulgar instruções sobre como fabricar armas ou informações sobre a sua venda nas redes sociais.
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Fonte: Agência Brasil




