
Hoje eles estão apenas na lembrança, principalmente daqueles que os frequentavam, desfrutando de bons momentos de entretenimento, de festas, de amizades, de tudo que o ambiente social saudável pode oferecer. Não tiveram sucedâneos e, provavelmente, jamais terão. Os clubes sociais desapareceram como um fenômeno natural das mudanças cíclicas que o mundo experimenta. O FTC e o CCC marcaram uma época, assim como as boiadas, a feira-livre, os cinemas e tantas outras coisas. O que vivemos hoje também passará.
Em 1944, com a população urbana já se aproximando de 30 mil habitantes e, no geral, mais de 80 mil moradores, Feira de Santana ganhava ares de cidade socialmente evoluída e necessitada de acompanhar os ditames de urbes como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, dentre outras que, além do trabalho, ofereciam opções de lazer e qualidade de vida. Para isso, nada melhor do que um local em que as famílias pudessem se reunir, conversar, dançar, ouvir música e praticar esportes, com comodidade e organização. Mas como fazer isso? Naturalmente, sabendo ou conhecendo a realidade de outras cidades de maior porte, os mais audaciosos ou sonhadores opinaram: um clube social!
Assim, em 8 de dezembro de 1944, reunidos no salão nobre da Sociedade Monte Pio dos Artistas Feirenses, na Rua Direita (Rua Conselheiro Franco), um resumido grupo de cidadãos, pode-se dizer a elite feirense, resolveu concretizar o que já vinha sendo colocado em prática nas reuniões de fins de semana que ocorriam entre famílias amigas: fundar um clube social. Como estava latente, a ideia foi aprovada sem discussões, como também o nome: Feira de Santana Tênis Clube, o que se justificava por ser o tênis, até hoje, considerado um esporte de elite.
Talvez para reduzir o efeito desse rótulo, o professor Áureo Filho propôs, com o imediato apoio dos demais, simplificar o nome da agremiação social para Feira Tênis Clube (FTC). Desse modo, surgia, em 8 de dezembro de 1944, há 82 anos, o clube depois cognominado de O Aristocrático. Em reunião seguinte, o grupo de jovens da sociedade feirense decidiu entregar a um trio a liderança dos trabalhos para tornar a agremiação uma realidade. Ideval José Alves ficou como responsável pela área financeira; Newton da Costa Falcão, pelo setor social, com a missão de atrair os primeiros sócios; e Antônio Matos, popularmente Tide, encarregado de gerir as obras. Uma espécie de engenheiro, mestre de obras e operário especial!
A missão, apesar do entusiasmo inicial do grupo, não foi fácil, mas, em janeiro de 1945, o FTC agregava os primeiros 50 sócios remidos, mediante a contribuição de mil cruzeiros. Em 1946, a Prefeitura, titulada por Carlos Valadares, destinou a importância de 50 mil para o andamento das obras na área que integrava a enorme gleba ocupada pelo antigo campo do gado, então já deslocado um pouco adiante, onde está hoje o Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira. A doação da área do FTC foi feita oficialmente pelo prefeito Eduardo Froes da Mota, em 1944.
Em março de 1947, os sócios efetivos iniciais contribuíram com joia de 200 cruzeiros para aceleração das obras e, no dia 12 de abril de 1947, o FTC abria seus salões para o primeiro baile carnavalesco, com expressiva presença de associados, num evento sem similar até então, marcando o início de uma nova fase para a sociedade feirense. Com o passar do tempo, o FTC tornou-se uma das mais importantes agremiações sociais do Nordeste, com uma valiosa agenda anual de festas, reuniões, formaturas e shows musicais, apresentando alguns dos mais famosos astros do país. No esporte, tornou-se referência, consagrando-se em modalidades de quadra como vôlei, basquetebol e futebol de salão. E foi exatamente no Feira Tênis Clube que, em 1964, surgiram os Jogos Abertos do Interior (JAIS), que se constituíram no maior certame do gênero realizado até hoje na Bahia e, possivelmente, no Nordeste.
Dezoito anos depois, em 12 de dezembro de 1962, Feira de Santana, então registrando 70 mil habitantes urbanos de uma população total de 145 mil pessoas, ganhava o Clube de Campo Cajueiro que, ao contrário do seu antecessor, foi implantado fora da zona urbana, à margem da BR-324 (Feira/Salvador), em uma área dotada de grande quantidade de cajueiros, o que originou o nome da entidade, a quatro quilômetros do centro da cidade. O surgimento do CCC foi uma espécie de mudança do FTC, ou de parte dele, para novo endereço, como acontece com famílias quando mudam para outra cidade, rua ou até mesmo país. Atribui-se, especialmente, ao falecido Osvaldo Torres, forte dirigente do FTC, a criação do CCC.
Insatisfeito com acontecimentos internos no Feira Tênis Clube, em especial por não ter conseguido a eleição para a presidência, perdendo a disputa para o professor Wagner Mascarenhas, Osvaldo Torres afirmou que não mais frequentaria o FTC e idealizou a nova agremiação social, que foi inaugurada em 1962, tendo-o na presidência. A bela sede do CCC foi projetada pelo saudoso arquiteto Amélio Amorim. A cidade expandia-se, capacitada a congregar dois clubes sociais de porte, estabelecendo um verdadeiro Fla x Flu, obviamente lembrando o futebol. Ganhou a comunidade com a oferta de interessantes programações pelas duas agremiações. Foram marcantes no FTC eventos como “Uma Noite no Havaí”, “O Broto do Ano”, “Rainha da Cidade”, “Festa das Debutantes”, promovidos pelo colunista social M. Portugal.
Esse mesmo colunista, considerado o número um da Bahia, também brindou os associados do Cajueiro com a Festa das Debutantes. Mais importante, no entanto, foi o “Baile Caju de Ouro”, iniciado em 1975 pelo presidente José Olímpio Mascarenhas e que era realizado uma semana antes da micareta. O desfile de fantasias de luxo durante o baile imortalizou a festa no CCC, reunindo artistas aplaudidos no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, como Jesus Henrique, Clóvis Bornay, Evandro Castro Lima, Wilza Carla, Joãozinho Trinta, Charles Albert, que estava radicado em Feira, dentre outros. A história é o registro de fatos passados e, nesse caso, relativos aos dois mais importantes clubes sociais da cidade, que deixaram uma marca importante a ser preservada.
Por Zadir Marques Porto
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Foto: Divulgação Arquivo ZMP





