

Foto: © Rodrigo Maluco/PECK e MV Produções
As oito décadas de vida do cantor e compositor Alceu Valença vão ser comemoradas com a turnê 80 Girassóis, que estreia no próximo sábado (14), no Rio de Janeiro. Em seguida, o emblemático representante da música pernambucana seguirá para São Paulo, Salvador, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Recife, Fortaleza, Belém e Belo Horizonte, com patrocínio master do Banco do Brasil.
Os shows estão programados para ocorrer até junho, e Alceu completará os 80 anos em 1º de julho.
“Esta turnê vai ser uma maravilha. Está sendo muito bem projetada pela minha esposa, Yanê [Montenegro], e Júlio Moura. A gente tem sócios em vários estados para fazer esta turnê”, disse Alceu em entrevista à Agência Brasil.
O show deste fim de semana será na Farmasi Arena, na Zona Sudoeste da capital fluminense. Com Alceu, estarão no palco os músicos Tovinho (teclados e direção musical), Cássio Cunha (bateria), Zi Ferreira (guitarra), Nando Barreto (baixo), André Julião (sanfona), Costinha (flautas) e participação ainda de Lui Coimbra (violas e violoncelo) e Natalia Mitre (percussão).
Alceu contou que a temporada é resultado de seis meses de ensaios, tudo gravado em áudio e vídeo, e destacou as projeções que vão ser exibidas durante as apresentações.
“Esse show tem umas projeções incríveis feitas por Rafael Todeschini. A Yanê participa também. Projeções simplesmente maravilhosas, e, dentro desse acervo meu, até minha mãe e meu pai vão aparecer”.
A todos que o perguntam sobre a ação do tempo em sua vida desde quando era menino, em São Bento do Una, Alceu conta que vive no presente, passado e futuro, em uma Embolada do Tempo, que é o título de uma das suas músicas. Durante a entrevista, ele declama parte da letra.
“O tempo em si/ Não tem fim/ Não tem começo/ Mesmo pensado ao avesso/ Não se pode mensurar”.
E continua:
“Buraco negro/ A existência do nada/ Noves fora, nada, nada/ Por isso nos causa medo”.
“Tempo é segredo/ Senhor de rugas e marcas/ E das horas abstratas/Quando paro pra pensar”.
“Você quer parar o tempo/ E o tempo não tem parada”.
A turnê não se restringe aos shows. Algumas das cidades por onde ela passar também receberão exposições de artes plásticas e sessões de filmes. Alceu destacou que é cineasta e já fez participações como ator em diversas produções.
“Fiz o papel principal no filme de Sérgio Ricardo [também cantor e compositor] A Noite do Espantalho. Depois, fiz um filme chamado A Luneta do Tempo”, contou.
O cantor acrescentou que tem um acervo grande de filmes realizados em diversos países como França, Alemanha, Suíça, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Brasil.
“Eu sempre gostei da arte de cinema e levava câmeras comigo. Tenho muita coisa. São outras partes do meu trabalho. Não é só a música. É a trajetória”.
A escolha das músicas, segundo Alceu, seguiu um método que ele próprio definiu: encadeá-las conforme os temas de cada uma.
“É uma narrativa poética. Por exemplo, Martelo Agalopado, que é uma música que advém do cantador, faz parte da cultura do sertão profundo, onde nasci, em São Bento do Una. Logo depois, vem o repertório de Luiz Gonzaga, porque ele faz parte disso e se completa. Outra, é de quando eu era criança e gostava de correr de Cavalo de Pau [nome de uma das músicas ]”, descreveu.
O lado folião não podia faltar e está representado, tanto na presença que costuma ter em Olinda como em shows de trios elétricos no período da folia. Em São Paulo, há mais de dez anos, e no Recife, em um período mais recente, ele comanda o bloco Bicho Maluco Beleza, arrastando 1 milhão de pessoas.
Também estará na turnê o “Alceu caminhador”, o cara que vive aqui e lá. “Coração Bobo eu compus em Paris, quando morei lá, com saudade muito grande de Jackson do Pandeiro e Geraldo Azevedo. Tem uma outra que compus falando sobre ruas, Pelas ruas que andei, e falo das ruas do Recife. Tem uma com lembranças de Nova York, que compus aqui, no Rio de Janeiro”, relatou.
O processo para compor as suas obras é diverso e, na música Anunciação, ele o classifica como um surto criativo. Alceu revelou que, andando em Olinda, criou uma música na flauta com que estava aprendendo a tocar. Quando entrava em casa, uma moça elogiou o que tinha ouvido.
“‘Alceu que música bonita que você estava tocando? Que coisa mais linda’. ‘Você achou?’ Perguntei. A música ia se perder se ela não tivesse falado”, afirmou.
Ao chegar na cozinha, Alceu pegou um papel de pão e começou a fazer a letra, escrita a lápis, de Anunciação.
O artista contou que existem diversas postagens nas redes sociais de pessoas que relatam a ligação dessa música com o nascimento de crianças.
“Olha o que eu encontro! Se você sair comigo por aí, todo dia é a mesma coisa. Mulheres dizendo que tinham dificuldades, e o filho nasceu [ao som da música], outras que não tinham. Tem quem diz que fez o parto ouvindo a música e crianças pequenas que dizem que ouviam desde que estavam no bucho [barriga da mãe]. Tô brincando”, disse sorrindo.
Alceu comemora os números de acessos das suas músicas na plataforma de streaming de áudio Spotify, na qual Anunciação alcançou 200 milhões. Já no YouTube, Belle de Jour conta com mais de 300 milhões.
A inspiração é uma marca de projetos que Alceu participou ao longo da vida. Mesclando o clássico com o popular, sua jornada tem concertos com orquestras do Brasil e do exterior.
“Eu advenho da cultura do sertão pernambucano profundo. Lá, eu ouvia aboios, toadas de vaqueiros”, recordou.
Essa trajetória quase seguiu outro caminho: Alceu quis ser advogado e fazer concurso para promotor. Chegou a se formar, mas não seguiu na carreira, confirmando uma frase que lembra ter ouvido da mãe, que dizia que ele veio ao mundo para levar alegria às pessoas.
“Coisa boa que se confirmou, porque se não tivesse se confirmado, seria chato para ela e para mim”.
Fonte: Agência Brasil




