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Taboca torna presente um passado doce da infância feirense

Muitos nunca ouviram falar, nem desfrutaram de uma saborosa taboca, um doce seco e simples, comum em tempos idos da Princesa do Sertão. Mas ela ainda existe, assim como o taboqueiro, com a sua indispensável matraca. No cenário da metropolitana e cosmopolita Princesa do Sertão, uma viagem ao passado.

O ruído esquisito da matraca – instrumento feito de madeira (uma pequena tábua) com armação de ferro – que soa semelhante a um chocalho ou a um triângulo (instrumento musical) chamava atenção. Era a esperada passagem do taboqueiro, quase sempre no mesmo horário, até porque o matraquear era o sinal de alerta para a gurizada e adultos também, que esperavam, com expectativa, o momento de saborear a taboca: um doce seco de composição simples, mas extremamente convidativo e agradável. Alguns desses vendedores passavam por volta das 10 horas, outros depois das 15 horas, de acordo com o momento da merenda, hoje chamada de lanche.

Em tempos bem diferentes e saudosos para muitos, entre as décadas de 1950 e 1970, os taboqueiros faziam parte de uma categoria de vendedores que percorriam a cidade mercando diversos produtos, principalmente nas ruas residenciais, mas com boa frequência também na zona comercial, praticamente restrita ao centro da Princesa do Sertão. A eles juntavam-se outras figuras como os baleiros, com suas cestas repletas de chocolates, caramelos e chicletes; os vendedores de lê-lê, de quebra-queixo, cocada, cuscuz, pamonha — que notabilizou Noratinho da Pamonha — e de pão, que também marcou com seu Roque, esperado pelas famílias todas as tardes, empurrando seu pesado carro de pão.

Com o passar do tempo e o notável desenvolvimento urbano da Princesa, o cenário mudou literalmente, e esses vendedores desapareceram, cedendo espaço a numerosos estabelecimentos comerciais que oferecem doces, bolos, lanches e todos os tipos de gêneros desejados. Assim, ocasional e surpreendentemente, ouve-se o matraquear de um taboqueiro no centro da cidade. Trajado de branco, parecendo um médico, mas com uma grande caixa de inox às costas e uma matraca, Florisvaldo Cunha Marques parece sair de um filme de ficção, tipo “De Volta ao Passado”.

A caixa, revestida de um material aparentemente inoxidável, logo fica vazia. A capacidade máxima — 50 tabocas — mal dá para atender aos apreciadores da guloseima. Agora é retornar à sua residência. Natural de Canavieiras, Florisvaldo veio para Feira de Santana aos 16 anos, morando atualmente em Conceição da Feira. Jovem, foi vendedor de doces, inclusive quebra-queixos que ele mesmo fabricava, até aprender a produzir taboca com o paulista Antônio Santiago e melhorar a técnica com as orientações de dona Florípedes, esposa de Santiago.

Criativo, Florisvaldo acrescentou mais um item à simplória composição da massa de taboca originalmente: farinha de trigo, açúcar e água. “Eu passei a colocar também farinha láctea, ficou melhor”, garante. A ideia surtiu efeito e foi consolidada com a aprovação do público há mais de 35 anos. Com 74 anos, casado, Florisvaldo vive praticamente da produção e venda da taboca em Feira de Santana. Mas ele não é o único a explorar a atividade: o cearense José George Souza também percorre as ruas da cidade vendendo o doce.

Autointitulado “George, o Rei da Taboca”, ele defende o seu “reinado”, uma vez que reside em Feira de Santana desde que chegou aqui em 1976, procedente de Jaguaretama, Ceará, aos 14 anos de idade, e aprendeu a arte da taboca com o tio Antônio Santiago, o mesmo mestre de Florisvaldo. Santiago faleceu há quatro anos, conforme George. Agora, já se aproximando dos 80 anos de idade, ele mantém atividade regular na fabricação de taboca no bairro Baraúnas, de onde sai diariamente, à exceção de domingo, para comercializar o doce.

Organizado, o taboqueiro cearense criou um calendário determinando o roteiro a ser cumprido de segunda-feira a sábado, evitando repetir uma área visitada e deixar outra descoberta. Ele usa a matraca e a lata convencional que comporta 70 sacos. Cada saco plástico contém 10 tabocas ao preço de R$ 10, o que significa o valor de R$ 1 a unidade. Casado, pai de quatro filhos adultos — dois com curso superior, “tudo graças à taboca”, ressalta —, José George destaca a simplicidade na composição do produto: “leite, água e açúcar, eu uso o mascavo. Quem quiser pode acrescentar outros itens, mas essa é a fórmula original e a que eu utilizo”, garante, acrescentando que em São Paulo a taboca é conhecida como cavalo chinês.

Fabricar taboca não é difícil, garante. É só preparar a massa e levá-la à forma, a exemplo de um bolo. O formato do doce é obtido no equipamento onde a massa, de mínima espessura, é prensada. O cuidado maior deve ser no manejo, ao pegar na taboca, que quebra ou esfarela com facilidade, garante George, assim como Florisvaldo.

Embora em pleno século XXI, com a vida em expressa modernização, eles não dispensam o uso da matraca e observam que ela está intimamente ligada à origem do doce, de procedência europeia. “Segundo a história, a taboca foi criada por um sacristão, responsável por fabricar as hóstias de uma paróquia. Um dia, sem nada para fazer com a massa, ele teria pensado em inventar uma espécie de doce — e deu certo. Por isso a matraca, que é usada em eventos da Igreja, faz parte da história. Pelo menos é o que eu ouvi sobre o assunto”, relata Florisvaldo.

Por Zadir Marques Porto

Fonte: Prefeitura de Feira de Santana

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