Projeto ‘Raízes da Cidadania’ do MPBA faz diagnóstico social em quatro municípios do Sul da Bahia

Filho de um dos primeiros moradores do Município de Almadina, Admilson Alves da Silva, 57, mostra satisfação em viver numa “cidade pacata, sem violência”. Mas apesar da percepção positiva sobre a qualidade de vida, o município enfrenta significativos problemas estruturais – cerca de 63% das pessoas cadastradas no CadÚnico vivem em situação de pobreza. Para reverter fragilidades socioeconômicas como essas, e não só em Almadina, o Ministério Público do Estado da Bahia realizou nos últimos dois dias, 25 e 26, o sexto ciclo do projeto ‘Raízes da Cidadania’, com visitas técnicas e audiências públicas com a população e representantes do poder público nos municípios de Almadina, Buerarema, Itororó e Santa Cruz da Vitória, na região sul do estado.

Os quatro municípios já formalizaram a adesão ao projeto. A iniciativa busca aproximar a atuação institucional da realidade local, com foco na promoção de direitos fundamentais e no fortalecimento de políticas públicas. Estruturado em três etapas, incluindo implantação, execução e monitoramento, o projeto utiliza dados sociais para identificar demandas prioritárias e construir soluções em parceria com gestores públicos e a sociedade civil. “A etapa de implantação estabelece o início da atuação direcionada dos órgãos finalísticos do Ministério Público, com o objetivo de promover transformação social nas áreas de atuação do projeto – saúde, educação, meio ambiente, defesa da criança e do adolescente e direitos humanos. Por meio da instauração de procedimentos administrativos, o MPBA irá fomentar políticas públicas municipais voltados às demandas prioritárias dos municípios, estabelecendo uma atuação estratégica e baseada em evidências, que somente se tornará efetiva com a colaboração do poder público e de toda sociedade”, destacou a promotora de Justiça Patrícia Medrado, coordenadora da Gestão Estratégica (CGE).

Almadina

O primeiro município visitado ontem, dia 25, foi Almadina, uma cidade de 5,2 mil habitantes. Durante o lançamento do projeto, que ocorreu na Câmara de Vereadores da cidade, o promotor de Justiça Inocêncio Oliveira destacou que a escolha de Almadina se deu justamente em razão da fragilidade dos indicadores sociais. Segundo ele, a “proposta é estabelecer parceria com o poder público local para promover melhorias concretas na qualidade de vida da população, com foco em áreas como saúde, educação e meio ambiente”.

O coordenador do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (Ceama), promotor de Justiça Augusto Matos, ressaltou que a iniciativa se baseia em dados reais para orientar a atuação institucional e fomentar soluções construídas de forma participativa, envolvendo gestores e sociedade civil. “Hoje é um dia bastante exitoso em Almadina, pois o MP junto com toda a sociedade civil e poderes constituídos, de forma orgânica e uniforme, congregou esforços para esse grande objetivo comum que é a assinatura do termo de adesão do projeto Raizes, de forma a trazer melhorias significativas para o desenvolvimento social da população”, destacou. Na área ambiental, o município ainda mantém um lixão a céu aberto distante a pouco mais de um quilômetro da sede. Indicadores relacionados à infância e adolescência também chamam atenção, como a taxa de mortalidade infantil de 26,32 por mil nascidos vivos em 2023 e a ausência de um Plano Municipal da Primeira Infância.

Na ocasião, os promotores de Justiça Augusto Matos e Inocêncio de Oliveira visitaram a sede do Centro de Atendimento Sociopsicopedagógico (Creas), que atende 168 crianças com necessidades especiais; a creche escola Tia Coló, que atende 117 alunos de 1 a 5 anos de idade; a sede do Centro de Referência de Assistência Social (Cras); o Conselho Tutelar; o Setor Municipal de Alimentação Escolar (Semae), que fornece alimentação e lanches para todas as escolas municipais; e a Unidade Básica de Saúde (UBS) Fernando Alves Pereira.

Buerarema

Em Buerarema, o diagnóstico aponta avanços na educação, com universalização do acesso à pré-escola para crianças de 4 e 5 anos. Apesar disso, persistem desafios na saúde, especialmente na baixa cobertura da avaliação do pé diabético em equipes de Saúde da Família. A situação da segurança alimentar é considerada crítica, com mais da metade da população cadastrada no CadÚnico em situação de pobreza e ausência de adesão ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). A taxa de mortalidade infantil alcançou 48,39 por mil nascidos vivos em 2023, e o município ainda não possui um Plano da Primeira Infância.

A apresentação do projeto foi realizada na Câmara de vereadores da cidade pelas promotoras de Justiça Rocio Matos, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Saúde (Cesau), e Renata Lazzarini. Foram visitados o Grupo Escolar Juarez Alves, que possui 250 alunos de 3 a 5 anos; e a Unidade de Saúde da Família Professor Ernandi Lins. “Hoje tivemos uma reunião ampliada para a apresentação do projeto, que foi bem recebido pelo poder público local e pela sociedade civil organizada. Estaremos a médio prazo acompanhando os indicadores do Município e, consequentemente melhorando a qualidade de vida da população”, destacou a promotora de Justiça Renata Lazzarini. A coordenadora do Cesau Rocio Matos ressaltou o “compromisso da gestão local, que sinalizou positivamente à adesão ao projeto e, com isso, já podemos iniciar a execução das ações nessas cinco áreas – saúde, educação, meio ambiente, criança, adolescente e direitos humanos, focando no acompanhamento desses indicadores sociais da população de Buerarema”.

Itororó

O município de Itororó convive com um lixão ativo há mais de 40 anos, ocupando uma área de aproximadamente oito hectares e gerando impactos ambientais, como contaminação do solo e proliferação de vetores. Esse foi um dos principais indicadores que levou o MP a selecionar a cidade para receber o projeto Raizes da Cidadania. A iniciativa foi apresentada na manhã de hoje pelos promotores de Justiça Ana Emanuela Rossi, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Criança e do Adolescente (Caoca), e Millen Castro. “O município de Itororó esteve em festa hoje pela manhã, demonstrando compromisso absoluto com a implantação do projeto Raízes da Cidadania, que visa efetivar direitos fundamentais, por meio da implementação de políticas públicas, revertendo um cenário desfavorável de indicadores sociais, e melhorando a vida das pessoas”, destacou a promotora de Justiça Ana Emanuela Rossi. A execução do projeto em Itororó  ficará sob a responsabilidade da promotora de Justiça Karina Costa Freitas, que organizou a apresentação feita na Câmara de Vereadores da cidade.

Ana Emanuela Rossi complementou que foi pactuado com o Município de Itororó o cumprimento de metas específicas de implementação do Plano Municipal da Primeira Infância; garantia da atenção básica de saúde e ampliação do cuidado com diabetes e hipertensão; enfrentamento da evasão e do abandono escolar; gestão adequada dos resíduos sólidos; e adesão ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). “A parceria da equipe central do projeto, representada pelos centros de apoio das áreas temáticas e pela gestão estratégica com a Promotoria de Justiça local também é um ponto fundamental para o êxito da iniciativa, garantindo uma atuação integrada e potente do Ministério Público nas fases de implantação, execução e monitoramento dos resultados alcançados. Que esse seja mais um momento de renovação do compromisso com a defesa da dignidade da pessoa humana e com uma atuação transformadora, resolutiva e transversal do Parquet baiano”, ressaltou a promotora de Justiça. Antes do lançamento do projeto na Câmara de Vereadores, foram visitados a escola municipal Julieta Pontes Viana e a sede do Conselho Tutelar de Itororó.

Santa Cruz da Vitória

O Município de Santa Cruz da Vitória foi incluída no sexto ciclo do projeto por apresentar fragilidades em indicadores sociais das áreas temáticas do projeto. A apresentação, que ocorreu na Câmara de Vereadores, foi feita pelos promotores de Justiça Patrícia Medrado e Rafael Pithon. Na área da saúde, os dados apontam baixa cobertura na avaliação do pé diabético, com índices de 31% na Estratégia de Saúde da Família (ESF) Vila Nova e 40% na ESF Maria Gonzaga. Já na educação, as taxas de abandono escolar em 2024 alcançaram 2,6% nos anos iniciais do ensino fundamental, 10,4% nos anos finais e 7,6% no ensino médio.

No campo ambiental, foi identificada a disposição inadequada de resíduos sólidos em um lixão utilizado há mais de 30 anos, cenário que representa risco elevado à saúde pública. Em relação às políticas para crianças e adolescentes, o município não possui Plano Municipal da Primeira Infância. Já na área de direitos humanos, o diagnóstico revela que 51,07% das pessoas cadastradas no CadÚnico vivem em situação de pobreza. Na ocasião, a promotora de Justiça Patrícia Medrado visitou o Centro Municipal de Educação José Guedes e o posto de saúde Nelson Barros, com o objetivo de conhecer de perto a realidade local e dialogar com gestores e a população.

“A seleção dos municípios ocorreu a partir de um diagnóstico socioeconômico, utilizando indicadores sociais, com vistas à concentração de esforços e ações do Ministério Público e alcance de resultados mensuráveis na melhoria dos indicadores em um prazo de dois anos”, afirmou a promotora de Justiça Patrícia Medrado.  A execução do projeto no município ficará sob a responsabilidade da promotora de Justiça Mariana Magalhães Toledo Barboza, que atuará na articulação com o poder público local e demais atores sociais para implementação das ações previstas.

Fotos: Humberto Filho / Danilo Dallane / Ricardo Nery

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