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As Ilhas Canárias, arquipélago espanhol localizado no Oceano Atlântico, enfrentam situação sanitária excecional com a chegada a Tenerife, nos próximos dias, do MV Hondius, o navio de cruzeiro afetado por um surto de hantavírus que causou três mortes em um total de oito casos.
Todas as pessoas com sintomas já foram retiradas., Cerca de 140 pessoas a bordo estão assintomáticas e com boa saúde, disse a ministra da Saúde, Mónica García, em entrevista.
A partir de Tenerife e após uma primeira avaliação médica, os passageiros serão repatriados para os países de origem, entre eles 14 espanhóis que ficarão em quarentena no Hospital Gómez Ulla, em Madri.
Os passageiros vão ser internados na Unidade de Isolamento e Tratamento de Alto Nível (Uatan) de uma unidade de saúde do Ministério da Defesa, criada após a crise sanitária do Ebola em 2014.
Não se sabe exatamente quanto tempo vão permanecer ali, mas o período de incubação do vírus é de cerca de 45 dias, explica a presidente da Sociedade Espanhola de Epidemiologia (SEE), Maria João Forjaz, número também citado por Mónica García.
Será necessário determinar a partir de que dia começa o período, uma vez que, de acordo com as informações da OMS, a doença apareceu no navio entre 6 e 28 de abril.
Especialistas indicaram a possibilidade de reduzir esse tempo com a realização de testes sorológicos em pessoas assintomáticas para determinar se têm anticorpos e se não estão mais em risco por terem ultrapassado a doença. No entanto, Maria João esclarece que isso não é possível, uma vez que “as pessoas sem sintomas não têm qualquer indicador sorológico de que a doença se desenvolveu”.
A única forma de verificar se tem ou não a doença é, portanto, “monitorar os sintomas” continuamente.
É importante que os passageiros, mesmo que não apresentem sintomas, passem por um centro de referência como o Hospital Gómez Ulla, onde poderão ser tratados rapidamente e transferidos para os cuidados intensivos, se necessário.
Inicialmente, o doente apresenta sintomas semelhantes aos da gripe, como febre e mal-estar, que podem ser acompanhados de “sintomas gástricos, diarreia ou dores abdominais”.
Nos casos mais graves, há “envolvimento pulmonar”, o que obriga a que a pessoa seja tratada numa unidade de terapia intensiva (UTI). O tempo é fundamental: a doença pode ocorrer entre três e seis dias desde o aparecimento dos primeiros sintomas até o desenvolvimento de casos mais graves.
Como não há vacina nem cura, o tratamento antecipado é essencial. Na UTI, é o próprio organismo que combate o vírus e, se o paciente for tratado rapidamente, a taxa de letalidade, que pode chegar a 50%, cai consideravelmente.
Se não houver novos casos sintomáticos, os passageiros passarão curto período em Tenerife e todo o processo de repatriamento “não representará qualquer risco para a população das Ilhas Canárias ou para a atividade econômica”, afirmou a ministra da Saúde em resposta às dúvidas manifestadas pelo governo autônomo das Ilhas Canárias.
Serão seguidos protocolos de segurança rigorosos “para minimizar todos os riscos”, a começar pela própria escolha do navio para atracar no porto de Granadilla, que é pequeno e tem pouco tráfego, explica Maria João.
Os profissionais de saúde encarregados de atender os passageiros mantêm os procedimentos habituais, com equipamento de proteção individual completo e “um protocolo para colocar e retirar o equipamento para não se contaminarem e eliminarem tudo corretamente”, disse José Gallego Braun, presidente da Associação Espanhola de Médicos de Saúde Estrangeiros (AMSE), ao canal de notícias Canal 24 Horas.
Mesmo que houvesse pessoas infectadas a bordo, o que está excluído por enquanto, o risco de transmissão entre humanos é “extremamente baixo” e limitado apenas à variante dos Andes, que é precisamente a que afetou o navio, de acordo com Nacho de Blas, professor de Patologia Animal na Universidade de Zaragoza, em declarações à RTVE Noticias.
No caso da transmissão entre seres humanos, ela ocorre por meio de contato muito próximo, como entre pessoas que vivem juntas ou de um doente para o pessoal de saúde que o assiste, o que provavelmente aconteceu no navio. Circunstâncias como a desse navio, em que mais de 100 pessoas partilharam pequenos espaços fechados durante mais de um mês, são especiais”, diz a presidente da SEE.
Além disso, “há poucos surtos em que se tenha mantido a transmissão terciária, ou seja, em que um caso infectou outra pessoa e essa pessoa infectou outra”, diz Adrian Hugo Aginagalde, porta-voz da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Gestão da Saúde, ao portal científico Science Media Centre.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já informou que não há roedores no navio. Por isso, é provável que o casal que morreu tenha sido infectado na Argentina antes de o navio zarpar. Mas, caso houvesse ratos, seriam eliminados numa eventual exterminação e, mesmo que isso não ocorresse, consistiria de um tipo “específico” da Argentina que “não se adaptaria à Europa”, segundo De Blas.
Maria João Forjaz lembra que os roedores que transmitem a doença são ratos selvagens e não as ratazanas comuns que vemos nas nossas cidades.
As autoridades espanholas não esclareceram que tipo de ação será tomada com o navio quando estiver vazio. A epidemiologista Maria João acredita que a desinfecção pode ser feita por “limpeza úmida”, o que é “relativamente simples”, e que, após essa etapa, o navio de cruzeiro pode retomar as operações em segurança.
“Não se trata do coronavírus ou do Ébola, é um vírus conhecido, cujo modo de transmissão é conhecido, e é muito improvável que haja mais contágios”, afirma o pesquisador do Instituto de Saúde Carlos III.
Quando a covid-19 surgiu, nada se sabia sobre a forma como era transmitida ou qual a população mais vulnerável. O hantavírus, por outro lado, foi identificado há meio século e os casos são monitorados regularmente.
Trata-se de “vírus muito letal, mas pouco contagioso”, afirma Nacho de Blas. O risco de contágio para a população é muito baixo e, segundo Maria João, “não há hipótese de haver uma epidemia de hantavírus na Espanha”.
Fonte: Agência Brasil




