
“Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”. Lembrar esse hit dos antigos carnavais é rememorar a Micareta dos pierrôs, arlequins, colombinas, escolas de samba, confetes, lança-perfume, ruas decoradas e trio elétrico sem cantor. Já beirando os 90 anos, portanto na terceira idade, a festa nascida na Cidade Princesa, agora marcada para o mês de novembro, tem uma história rica, com capítulos aqui levemente lembrados e que, por certo, são guardados com fidelidade por antigos foliões ou pessoas que, embora não brincassem, iam às ruas da Princesa para ver a folia.
A fixação da Micareta de Feira de Santana deste ano (2026) para o mês de novembro, além de se constituir em uma novidade — a festa sempre foi realizada no primeiro semestre do ano, daí o slogan “O Carnaval de Abril que sacode o Brasil” — vai possibilitar, dentre outras coisas, maior espaço de tempo para a organização do evento e para os que gostam de rememorar aspectos do passado que, por força da dinâmica da vida contemporânea citadina, vão se diluindo tão rapidamente que sequer chegam ao alcance das novas gerações. O que não deveria ocorrer, já que a festa de Momo da Cidade Princesa tem peculiaridades, transcendendo a origem europeia do evento, com cores e valores próprios, bem sertanejos. A Micareta pode-se dizer, sem hesitação: é FEIRENSE!
A festa, realizada pela primeira vez em 1937, por conta do insucesso do Carnaval devido às fortes chuvas da época, tem um adendo importante que era citado repetidamente pelo desportista Manuel Fausto dos Santos (Manoel de Emília). “A festa já existia na Rua de Aurora (Rua Desembargador Filinto Bastos). Era realizada pelos rapazes da família Fadigas”. Garantia o presidente do Botafogo FC de Feira de Santana que, na juventude, havia integrado, como afirmava, o Bloco As Melindrosas, do Tanque da Nação e Rua de Aurora, que tinha como concorrente direto na festa o Bloco Filhos do Sol, da Rua do Sol (Rua J.J. Seabra).
Esse é um dos aspectos interessantes da história da Micareta, que teria assim começado na Rua de Aurora e logo expandida para a Rua Direita (Rua Conselheiro Franco), onde viveu uma das suas etapas mais importantes, até ser transferida para a Avenida Getúlio Vargas e, mercê ao espantoso crescimento verificado, desaguar no atual sítio: a Avenida Presidente Dutra. Na Rua Conselheiro Franco, no final da década de 1960 e na década seguinte, já incorporando na folia as praças da Bandeira e Jota Pedreira, a Micareta viveu os disputados concursos entre escolas de samba, blocos e afoxés. Havia ainda os blocos de índios e batucadas, com grande diversidade de opções para os foliões e, mais ainda, para famílias inteiras que se aglomeravam nas calçadas, esperando e torcendo pela Rainha e Princesas da festa, que desfilavam em carros decorados e feericamente iluminados. O risonho e feliz Rei Momo, que ganhava e ostentava a simbólica chave da cidade, também desfilava saudando seus súditos.
A Micareta de rua em Feira de Santana tinha muito de “um reino encantado”, onde todos podiam brincar sem medo, sem preocupação. Ao som do trio elétrico — só instrumentos de corda e marcação, sem cantor — o ambiente era próprio para a festa. Com o ar ligeiramente impregnado pelo lança-perfume e verdadeiros banhos de talco, confetes e serpentinas, a folia tomava conta das ruas. A primeira voz da Micareta em cima de um trio elétrico foi de Jota Morbeck, excelente artista que teve brilhante percurso na música baiana e faleceu, ainda jovem, em um mergulho no mar. O Trio Paturi (patrocinado pela aguardente do mesmo nome) foi pioneiro, ou um dos pioneiros, na cidade.
O sonho propiciado pela Micareta, com muitos criativos mascarados, incluía o desfile do bloco Ali Babá e os 40 Ladrões, que atraía multidões, em especial crianças. Já o concurso de escolas de samba, embora distante qualitativamente do que ocorria no Rio de Janeiro, gerava rivalidade entre os grupos e o público.
Escravos do Oriente, Unidos de Padre Ovídio, Juventude do Samba, Malandros do Morro, Marquês de Sapucaí e Acadêmicos do Samba propiciavam belos desfiles, mesmo com parcas condições financeiras. Inspiradas nas grandes escolas de samba da Cidade Maravilhosa, essas entidades enriqueciam a festa tentando repetir suas congêneres cariocas, com temas diversos, bons sambistas, alas criativas, porta-bandeiras, mestres-salas e ótimas baterias.
Outro ponto marcante da Micareta da Cidade Princesa, mais evidenciado a partir da transferência da festa para a Avenida Getúlio Vargas, era a decoração. Toda a área delineada para a ocorrência do festejo ganhava figuras relacionadas ao evento, principalmente de forma rememorativa. Quem adentrasse no circuito sentia-se folião, mesmo que não o fosse. A iluminação decorativa sustentava o panorama típico da folia. Temas e artistas plásticos diferentes davam, a cada ano, um ambiente próprio ao evento. O artista plástico Zé Maria e a dupla Charles Albert e André foram alguns dos responsáveis pela decoração do sítio da festa.
“Passe na Lapa, chofer, que eu quero ver aquela mulher”, “Mandei fazer pra você, Maria, uma fantasia de papel crepom…”, “Colombina eu te amei, mas você não quis…”, “Tai, eu fiz tudo pra você gostar de mim…”, “Bandeira branca, amor, não posso mais…” eram hinos do Carnaval entoados nas ruas durante os quatro dias de festa, enquanto, no trio elétrico, o imortal frevo pernambucano “Vassourinha”, como algo obrigatório, fazia o povo dançar no impulso dos acordes rápidos e melodiosos.
Vale lembrar que, logo no seu nascedouro, a festa era animada através de marchas e sambas de autores feirenses como Carlos Marques, Aloísio Rezende, Homero Figueiredo, Juca Sampaio, Elisiário Santana, Anacleto Carvalho, Honorato Bonfim e Romário Braga, dentre outros.
Evidente que, nos seus 89 anos de realização e com tantas fases ultrapassadas, a Micareta de Feira de Santana, referindo-se ao festejo de rua, reúne historicamente muitos outros aspectos interessantes que ficaram para trás e, naturalmente, sem perspectiva de volta. Mas esses recortes aqui referidos, de algum modo, amenizam o vazio na memória de muitos, em especial de antigos foliões, produzido pela sucessão dos anos.
Por Zadir Marques Porto
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Foto: Divulgação





