Papa Leão XIV completa um ano de pontificado

Foto: © Reuters/Guglielmo Mangiapane/Proibida reprodução

O papa Leão XIV completa nesta sexta-feira (8) um ano de pontificado, marcado por um confronto inédito com o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump. Tom do papado combina prudência institucional com afirmação moral.

A tensão com Trump, que o acusou de ser fraco e “demasiado liberal”, tornou-se o episódio mais midiático dos primeiros 12 meses. Leão XIV respondeu que “não tem medo” do presidente norte-americano, após críticas a ameaças contra o Irã, e que a sua missão é “proclamar o Evangelho, não ser político”.

O jornal digital Sete Margens lembra que Leão XIV não hesitou em afirmar que as políticas de imigração dos EUA vão contra os ensinamentos da igreja e escolheu um imigrante que entrou clandestinamente no país como bispo da Virgínia Ocidental.

O papa também não se inibiu de condenar a “diplomacia da força” após as operações militares na Venezuela e no Irã, defendendo o diálogo como o único caminho para a paz justa.

O embate atingiu o auge há três semanas, quando Donald Trump rotulou publicamente Leão XIV de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. 

Na resposta, o bispo de Roma procurou se deslocar do lugar em que Trump o pretendeu colocar – um rival – esclarecendo não ser um político e não pretender entrar em debate com ele. “Não lidamos com política externa na mesma perspectiva que ele talvez a entenda; eu acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador”

Eleito em 8 de maio de 2025 na quarta votação do conclave, o antigo cardeal norte-americano Robert Francis Prevost — primeiro papa dos Estados Unidos e primeiro agostiniano — surgiu como candidato de compromisso, com experiência curial e forte percurso missionário no Peru.

Logo na primeira semana, Leão XIV marcou o estilo: na missa inaugural afirmou que a Igreja deve ser “farol que ilumina as noites do mundo” e, dias depois, lembrou aos funcionários do Vaticano que “os papas passam, mas a Cúria permanece”, sinalizando uma governança mais institucional do que carismática.

Ao longo do ano, Leão XIV procurou equilibrar continuidade e correção face ao legado do seu antecessor, Papa Francisco, mantendo a orientação pastoral e social, mas com maior ênfase na ordem interna e na estabilidade.

Entre as principais reformas, destacam-se a reorganização da Cúria Romana com novos regulamentos, reforço do papel da Secretaria de Estado (a diplomacia do Vaticano) e aposta na coordenação interdepartamental, num modelo descrito por analistas como “reforma por absorção”, mais gradual e menos disruptiva.

No plano doutrinário, Leão XIV reafirmou posições tradicionais — contra o aborto, a eutanásia e a ordenação feminina — e publicou textos como Una caro, defendendo a monogamia, ao mesmo tempo que procurou reduzir conflitos internos ao evitar debates prolongados

A agenda internacional revelou um papa atento aos grandes conflitos globais: na Ucrânia, apelou a “negociações para uma paz justa”; no Oriente Médio, condenou a guerra e denunciou a “ilusão de onipotência” dos líderes; e, de forma transversal, afirmou que “Deus rejeita as orações de quem promove conflitos”.

A visita à África, em abril, foi um dos momentos altos do pontificado, com particular impacto em Angola, onde criticou a “lógica extrativista” e alertou que o país “não deve ser tratado como uma mina a céu aberto”, numa intervenção que ecoou além do campo religioso.

No campo emergente da tecnologia, Leão XIV posicionou-se como uma das vozes morais sobre a inteligência artificial, alertando para os riscos da Quarta Revolução Industrial e defendendo que a inovação deve respeitar “a dignidade humana, a justiça e o trabalho”.

Apesar da imagem de moderado, o papa não escapou a críticas: organizações de vítimas de abusos questionam decisões passadas, teólogos progressistas apontam falta de abertura em temas como o diaconato feminino, e setores conservadores acusam-no de ambiguidade pastoral.

Ainda assim, Leão XIV consolidou-se como uma figura de mediação num mundo fragmentado, com capacidade para dialogar entre correntes internas da Igreja e entre blocos geopolíticos, sustentado numa identidade singular: norte-americano de nascimento, latino-americano por experiência e romano por função.

Desde o início do pontificado, ficou claro que Leão XVI não ia seguir os passos do seu antecessor, o papa Francisco.

Enquanto o pontífice anterior preferiu viver na Casa Santa Marta, Leão escolheu regressar ao Palácio Apostólico; se na quinta-feira santa Francisco ia sempre a uma cadeia e lavava os pés de 12 reclusos, Leão decidiu, neste primeiro ano, lavar os pés dos padres da diocese de Roma; e se para Francisco não existiam férias, Leão já deve ter passado mais tempo em Castel Gandolfo nesses 12 meses do que o seu antecessor ao longo de 12 anos de pontificado.

Adotou também uma postura mais conciliadora em relação à Missa Tridentina, tendo autorizado a celebração da eucaristia segundo esse rito tradicional na Basílica de São Pedro. O gesto foi considerado por muitos para diminuir as tensões na Igreja Católica.

“Uma coisa Leão XIV já provou ao longo deste ano: é possível dar continuidade a quem nos antecede e simultaneamente trilhar o próprio caminho, estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre, reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta”, destaca a Sete Margens em artigo sobre o primeiro ano do papado de Leão XIV.

Fonte: Agência Brasil

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