O tempo passa e com ele as pessoas, os costumes, a própria vida, mas sempre fica algo, notadamente quando se trata de um fato interessante que muitas vezes, embora não lavrado na história citadina, por diferentes motivos, como é o caso desse, dela não fazendo parte oficialmente, é guardado e rememorado com satisfação por alguns.
A realidade e a ficção muitas vezes estão tão próximas, que se confundem, ou confundem as pessoas que tomam conhecimento de determinados fatos. Cidade acolhedora e progressista Feira de Santana, ao longo de sua história, tem recepcionado enorme contingente de famílias oriundas de outros estados nordestinos que aqui se radicando, são contribuintes desse progresso com a força do trabalho e a determinação, comuns ao povo do nordeste. Comum também talvez sejam histórias de migrantes pobres que aqui chegando, mediante muito trabalho e inteligência, tornaram-se fortes empresários e empreendedores.
O caso em pauta, transcorrido há cerca de seis décadas, encaixa-se perfeitamente nesse histórico com a ressalva da omissão de nomes, exatamente pela sua veracidade, respeitando aos nele envolvidos e seus descendentes. Honesto trabalhador da zona rural, um simples agricultor, que como seus pais, vivia do trabalho na terra e embora jovem, sentia-se desgastando pela luta do dia-a-dia na lavoura, com a inclemência do sol e a incerteza de um colheita compensadora, sentindo a inutilidade do esforço que fazia, resolveu mudar de vida e tentar a sorte em Feira de Santana, como outros conhecidos, que haviam tomado o mesmo caminho e acertado.
Pouca coisa de valor ele contava na cidade onde nascera e vivia e um estado vizinho à Bahia. Desse modo peças de cerâmica, produzidas por habilidosos ceramistas de sua região, foi a mercadoria que ele trouxe e passou a oferecer ao público em uma pequena loja, localizada próxima a atual sede da Câmara Municipal. Talento nato de vendedor, destemor pelo trabalho e seriedade proporcionaram-lhe rápido e incontestável crescimento. O singelo migrante foi elevado à condição de forte empreendedor, com força politica, embora não a exercesse, e presença social, mas mantendo imutável a sua personalidade de homem honesto e simples.
O crescimento comercial gerou patrimônios e dinheiro para o comerciante, mas dentro da família, sem motivo plausível a não ser a terrível desdita das drogas, fez com que um dos seus prediletos descendentes elaborasse um criminoso plano para elimina-lo e assim, de algum modo, antecipadamente, tomar posse de parte da fortuna que no futuro seria da família. Um pistoleiro, vindo de outro estado, passou a observar o comerciante para estabelecer o plano de trabalho: momento e local para abatê-lo. Idas e vindas de clientes, amigos e pessoas que passavam pelo estabelecimento, sempre recebidos com muita cordialidade pelo comerciante, deixaram o matador em dúvida.
No dia previsto para a execução o pistoleiro aproveitando um momento em que o armazém ficou vazio aproximou-se e saudou o comerciante que respondeu: ‘Boa tarde, sente meu filho, quer um pouco de água?’. Como era época da moringa e do pote de barro, levantou-se e levou um copo de água para o visitante e este, surpreendido e comovido diante da demonstração de bondade com a atenciosa recepção agradeceu e, sem rodeios, contou o motivo de sua visita.
‘Estou aqui para matá-lo, fui contratado para isso, estou lhe observando, mas senti que o senhor é um homem bom e não merece isso. Não vou matá-lo, boa tarde’ e foi-se levantando. Surpreso o comerciante quis saber quem contratara o matador e quanto custaria o ’serviço’. O pistoleiro revelou o nome do contratante e quanto deveria receber garantindo: ‘Isso eu não vou fazer, mas se o senhor quiser e me der a mesma importância ‘eu apago ele’. O comerciante, alvo do premeditado crime de morte, que não se concretizou, conversou com o matador e concluiu: ‘Vou lhe dar tanto (mais do que ele receberia para elimina-lo), mas você não precisa matar ninguém, está certo?’.
Embora silenciasse sobre o assunto, a saga do comerciante de algum modo foi conhecida e propalada, às vezes acrescida de adornos ficcionais, para torná-la mais interessante. Mas é um episódio verídico, conforme moradores mais antigos da cidade que atestam a personalidade do comerciante já falecido e respeitado: ‘Um homem de bem, todos gostavam dele!’.
Por Zadir Marques Porto





