
Com a sua cordelteca no Mercado de Arte Popular (MAP), Jurivaldo Alves pode ser considerado como uma atração para o público, pela sua coleção de mais de cinco mil folhetins e a surpreendente capacidade de narrar a sua história de vida, passando por incontáveis profissões e inusitadas situações. Profundo conhecedor do cangaço, ele também é cordelista, palestrante, raizeiro, ator e numismata.
Os folhetins, ou cordéis, trazem em suas páginas, em estrofes bem elaboradas, histórias e contos enfocando heróis populares, bandoleiros, romances, fatos marcantes de uma época, enfim, tudo aquilo que pode interessar ao leitor. Verdadeiro ou ficcional, o cordel remotamente teve importante função informativa, como um jornal, principalmente no interior nordestino, onde, ao lado da pouca alfabetização, era difícil o acesso a impressos. Folheteiro e cordelista, Jurivaldo Alves parece emergido desse rico e imaginário universo do cordel.
Com a sua cordelteca, com mais de 5 mil títulos, instalada no Mercado de Arte Popular (MAP), ele não apenas atende ao público interessado em adquirir cordéis, como faz relatos pormenorizados sobre os livretos e autores. De memória privilegiada, ele é capaz de contar conteúdos inteiros de vários desses livros. Além disso, é profundo conhecedor da história do cangaço e de Lampião, que ele personifica com perfeição, trajando-se com extrema semelhança. O profundo conhecimento, originado em estudos, pesquisas, visitação aos locais mais marcantes da trajetória de Lampião e a participação nas diversas realizações do Cordel-Cangaço, garantem-lhe o valioso título de Embaixador do Cangaço, que lhe foi conferido em 2018 por Manoel Severo Batista, curador do Cariri Cangaço, evento máximo anual sobre o cangaço. Essa honraria só foi conferida a Jurivaldo Alves e ao escritor Câmara Cascudo, através de sua família.
Natural de Baixa Grande, mas, como milhares de outras pessoas, um feirense por adoção — ou por necessidade — já que veio para a Princesa disposto a trabalhar e cuidar da família, Jurivaldo pode figurar como personagem da literatura de cordel que renderia ao autor uma ampla coleção com vários volumes, tal a intensidade de sua vida. Deixou a casa dos pais em Baixa Grande com pouco mais de seis anos, disposto a trabalhar, sem escolher, e assim já teve tantas profissões que é difícil enumerá-las.
Bom de memória, ele cita algumas das atividades desempenhadas: agricultor, fabricante de bebidas e remédios, garapeiro, motorista, tratorista, tropeiro, raizeiro, “lambaio” de padaria, propagandista, camelô, desenhista, aprendiz de farmacologia, circense, ator de cinema e teatro, fabricante de doces, garçom, segurança de boate, vendedor de livros, além de ter sido dono de uma empresa que comercializava garrafas de vidro, com vários caminhões e 30 empregados. Em suas diferentes atividades, conheceu nove estados e o Distrito Federal, onde passou por extrema dificuldade, chegando a pensar em pedir esmola, mas “o Senhor me ajudou. Não tive coragem de pedir esmola e, com trabalho, logo me recuperei”.
Interessante é que, na época, com pouca leitura, mas memória apurada, começou a atividade de folheteiro, que até hoje mantém, conhecendo pessoalmente alguns dos maiores cordelistas, como Antônio Alves, Rodolfo Coelho Cavalcante, Cuíca de Santo Amaro e Erotildes Miranda, todos já falecidos, além do feirense Franklin Machado, atualmente em São Paulo, seu mentor na literatura popular. “Franklin Machado e o poeta Arlindo Rosa me incentivaram e me ensinaram a técnica da rima e do verso”, diz agradecido.
O cordel é tão importante para Jurivaldo que até seu casamento com dona Mara Alves, mãe dos seus seis filhos, dependeu de um desses pequenos livros. “Foi em 1973, eu estava pronto para casar, mas não tinha como. Foi quando Rodolfo Coelho Cavalcante lançou ‘A Terra brilhará outra vez: a vinda do Cometa Kohoutek’. As pessoas estavam apavoradas, temiam a destruição do planeta. Graças a Deus, isso não aconteceu, mas eu vendi cordel como se vende água no deserto e casei”, diz risonho.
Hoje, Jurivaldo Alves é presença indispensável em escolas e faculdades quando há eventos que tratam de literatura de cordel e cangaço. Com facilidade, discorre sobre os temas, agradando ao público pela autenticidade das abordagens, só encontrada em quem, como ele, conhece o máximo sobre os assuntos e os ilustra com linguagem simples e adequada. Jurivaldo também é numismata e tem livros sobre cangaço, poetas populares e diversos outros temas. Oficialmente Mestre em Saberes e Fazeres, em 2018 ele participou de um certame nacional, promovido pelo Ministério da Cultura, com 74 mil raizeiros dos mais diversos pontos do país, e obteve uma das melhores colocações.
Por Zadir Marques Porto





