
Sair da zona rural, ainda criança, para trabalhar no jornal Folha do Norte no início do século passado foi algo sem precedentes. Foram seis décadas nas oficinas da empresa, manuseando tipos de metal com impressionante habilidade, tal qual as máquinas que iriam substituí-lo anos depois. Mas foi além da tipografia. Autodidata, escreveu poemas e uma novela publicada no jornal. Assim foram 60 dos seus 86 anos de vida.
Nem sempre os bons são lembrados. Talvez, pela generosidade de que são providos, não se deem conta do papel que exercem na comunidade e da importância das suas existências. Nascido em 1900, na localidade de Gameleira, Arlindo Ferreira Pires foi um desses. Desde garoto, demonstrou extremo interesse pela leitura e, em especial, pelos jornais. Assim, muito cedo, em 1909, já estava na porta da Folha do Norte, de inauguração recente, instalada na Rua Sales Barbosa, confluência com a Rua Benjamin Constant, ao lado do Mercado Municipal (atual Mercado de Arte Popular).
A extrema dificuldade que apresentava a tipografia seduzia as pessoas e, no caso do garoto vindo da zona rural, muito mais. O manejo dos tipos de metal, que iam formando as palavras e, consequentemente, os textos que iriam depois para a impressora, exigia um comprometimento exaustivo do trabalhador (tipógrafo) e chegava a parecer algo mágico. A rápida composição de um texto era como a ação de um prestidigitador, que tira um coelho do chapéu ou uma carta de baralho do bolso de um estupefato espectador.
Arlindo Ferreira ingressou cedo nesse mundo mágico e hoje desconhecido das atuais gerações, na idade em que deveria estar brincando com bola de gude e chicotinho queimado, que também ficaram no passado. Conviveu com Tito Rui Bacelar, fundador do semanário, com Arnold Ferreira da Silva, sucessor do fundador e prefeito do município, bem como com os que, com ele, deram sequência à vida do órgão informativo: Raul Silva, Dálvaro Silva e os filhos deste: Hugo Navarro Silva, José Luiz Navarro e Antônio Navarro Silva.
Durante 60 anos, Arlindo Ferreira trabalhou na oficina gráfica do jornal com a firmeza de um soldado que bate continência para o superior sem se sentir minimizado, e sim com a certeza de que seu trabalho é indispensável e reconhecido. Mas não se limitou à difícil tarefa de manusear os tipos metálicos, constituindo-se em um consagrado mestre na antiga arte extinta com o advento do sistema offset. Foi um criativo escritor, produzindo contos e novelas com temas românticos e enredos de mistério.
Assinando como Oliveira Pires e mantendo, assim, a sua peculiar modéstia, foi autor da novela O Sentenciado 229, que a Folha do Norte publicou, criando no público leitor maior interesse pelas suas edições. Apesar de autodidata, era vocacionado e viveu na trilha que lhe foi destinada: gráfico de rara competência, escritor e poeta. Jamais se rendeu às dificuldades da época e viveu com dedicação os seus dias de trabalho. Metódico no seu dia a dia, voltado para a família, Arlindo Ferreira criou e editou, durante algum tempo, o jornal literário A Flor.
Ele também trabalhou na construção da Barragem de Bananeira. Teve prole numerosa, e um dos seus filhos, Humberto Magalhães Ferreira (Betinho), foi gráfico e um meia-atacante extremamente habilidoso, que atuou no time profissional do Fluminense de Feira no final da década de 1950. Já na década de 1980, Betinho foi presidente do Fluminense. Arlindo Ferreira Pires se aposentou pela Folha do Norte em 1968 e faleceu nesta cidade, em 1986, aos 86 anos de idade.
Por Zadir Marques Porto



