
Um dos maiores atacantes já revelados pelo futebol de Feira de Santana, o ponta esquerda Biribinha construiu uma trajetória singular. Poucos chegaram perto de seu talento. Passou por grandes clubes do país, como Santos, Fluminense e Vasco, atuou no exterior — Estados Unidos, México e Chile —, integrou o grupo Os Novos Baianos e, apesar da notoriedade, nunca demonstrou apego ao dinheiro. “Da vida nada se leva. Eu gostava mesmo era de jogar bola, era o que eu queria”, costumava dizer. Biribinha faleceu na sexta-feira, 9 de janeiro, sem queixas e sem tristeza, como sempre viveu.
De temperamento quase irredutível, que escondia uma profunda pureza de sentimentos, tinha como marca pessoal a autenticidade. Nunca foi personagem moldado para a mídia. Gilmar Luís de Santana nasceu assim e assim permaneceu. Herdou muito do pai, o zagueiro pernambucano Decadela (Manoel Luís de Santana), que chegou ao Fluminense em 1955, época em que o clube carioca reforçava seu elenco com nomes do futebol nordestino, como Borracha, Gilberto Weyne, Mangaba, Zé de Melo, Ninoso, Charuto, Elias, Paraíba I, Paraíba II e o mineiro Geraldo Pereira.
Ainda bebê, Gilmar chegou à Cidade Princesa, onde ganhou o apelido de Biribinha, pela semelhança com Biriba, ponta esquerda do Bahia nos anos 1960. Desde cedo mostrou velocidade, habilidade no drible e forte chute de pé esquerdo. Nas peladas do Campo do Horto e do Tanque da Nação, o garoto inquieto infernizava os zagueiros, que recorriam às faltas para contê-lo — sem sucesso. Era protegido e estimado pelo atacante tricolor Antônio Luiz, figura que lhe servia como um tio.
Quando a bola de couro não rolava, improvisava com bolas de gude nos canteiros da Praça da Catedral. A infância teve muito mais bola do que escola. “O planeta Terra é uma grande bola girando no espaço, e nossa vida também”, costumava observar. Em visita ao pai, em Santos (SP), conheceu outro jovem talentoso, Osni, com quem dividiu peladas na praia e canecas de vinho da adega da família do amigo. A amizade levou ambos ao juvenil do Santos Futebol Clube.
Desinibido, Biribinha logo se enturmou com nomes como Rildo, Clodoaldo, Manoel Maria, Picolé, Douglas, Negreiros e Edu. Entusiasmado com o futebol do baiano, o técnico Ernesto indicou o atacante ao Fluminense, acreditando que ele teria melhor adaptação no Rio de Janeiro.
No tricolor das Laranjeiras, foi titular do time juvenil comandado pelo ex-zagueiro Pinheiro, conhecido pelo rigor disciplinar. Mesmo jovem, Baiano — como era chamado — fez amizade com Cafuringa, Carlos Alberto Pintinho, Abel Braga, Carlos Alberto Torres, Didi, Wilson, Ananias e Marco Antônio. Sua velocidade, ousadia e destemor diante de jogadores experientes chamaram a atenção da diretoria, que já o via como futuro camisa 11 do clube.
A disciplina, porém, era rígida. Atrasos após as 23 horas eram inadmissíveis. Em um sábado, após jogos do campeonato juvenil, o retorno tardio terminou em confusão. Impedido de entrar na concentração, Biribinha pulou uma janela para abrir a porta — caindo, sem saber, sobre o próprio técnico Pinheiro, que dormia logo abaixo. O episódio resultou em sua expulsão do clube, apesar do talento e das boas relações.
O Vasco da Gama não demorou a acolhê-lo. Em São Januário, integrou um elenco forte, ao lado de Roberto Dinamite, Gaúcho, Pastoril, Mazaropi, Guina, Paulinho, Luís Fumanchu, Neném, Marcelo e Brasília, participando do tricampeonato carioca juvenil entre 1971 e 1973. Tornou-se amigo inseparável de Roberto Dinamite, mas, novamente, a indisciplina falou mais alto, rendendo-lhe novos problemas internos.
Proibido de frequentar o clube, passou a reencontrar os amigos em Ipanema, em rodas de chope e samba. Nesse período, estreitou laços com nomes como Marinho Chagas, Afonsinho, Brito, João Nogueira e Cazuza.
Em 1974, de volta a Feira de Santana, participou das festividades populares da cidade. Naquele ano, um amistoso entre Fluminense de Feira e Flamengo revelou novamente seu talento. Atuando com a camisa 11 do Touro do Sertão, Biribinha “entortou” o lateral Alcione, impressionando o técnico rubro-negro Aristóbulo Mesquita, que pediu sua contratação imediata.
Apesar do interesse do Flamengo, Biribinha já possuía vínculos com Vasco e Fluminense de Feira. Como alternativa, o técnico Walter Miraglia sugeriu sua ida ao Marília, em São Paulo. O acordo só não se concretizou porque o jogador exigiu luvas e um Karmann Ghia — exigência não atendida pelo clube.
Aos 20 anos, Biribinha decidiu abandonar o futebol profissional e integrar o grupo Os Novos Baianos, ao lado de Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Moraes Moreira, Gato Félix e Galvão. Com a banda, viajou por dois anos e foi homenageado por Pepeu com o choro “Biribinha nos States”, posteriormente regravado em Montreal, no Canadá.
Ainda assim, manteve vínculo com o futebol. Atuou por três temporadas no Thunder, em San Antonio, no Texas, com bons salários e o mesmo desapego financeiro de sempre. Jogou também no México, no Chile e no XV de Novembro de Piracicaba. Encerrou a carreira em 1979. Mais tarde, voltou ao Chile como treinador do San Luis, mas optou por retornar definitivamente a Feira de Santana, onde também chegou a comandar o Bahia de Feira.
Dedicou-se à família e acompanhou de perto a carreira do filho, o meia Bel, que atuou em clubes do Brasil e do exterior, incluindo o Boca Juniors, da Argentina. Nos últimos anos, enfrentou uma doença que resultou em amputação, sem jamais perder a alegria ou a disposição para a conversa.
Homenageado em vida, Biribinha costumava responder com simplicidade às perguntas sobre sucesso e dinheiro: “Da vida nada se leva. Eu gostava mesmo era de jogar bola. Jogar bola, para mim, era tudo”.
Por Zadir Marques Porto




