
Que as enormes boiadas que por aqui passavam deram origem ao povoado, hoje a metropolitana cidade de Feira de Santana, todos sabem, está na história. Talvez por isso, durante quase quatro décadas, a Corrida de Jegues obteve enorme sucesso. Nomes curiosos e hilários, uma “jóquei” de 102 anos, casamento de animais, muitas atrações que foram idealizadas e realizadas pelo comunicador Silvério Silva marcaram para sempre o evento.
Durante muitos anos, ou exatamente o tempo em que ela existiu, foi o maior evento popular de Feira de Santana e do interior baiano, só superado pela Micareta da Cidade Princesa. A Corrida de Jegues, criada pelo radialista Silvério Silva e realizada pela primeira vez em 1975, extrapolou todas as expectativas, dando a Feira de Santana maior relevância ao atrair não apenas competidores de vários outros municípios, como espectadores, turistas e os principais órgãos de comunicação do País e do exterior, como os Estados Unidos e o longínquo Japão.
Voltando a 1957, Silvério Silva, ou “Nozinho, o Seu Amiguinho”, como era divulgado, fazia o maior sucesso na Rádio Sociedade de Feira, com o programa Tarde Alegre a partir das 14 horas, que logo passou a ser intitulado Show da Tarde. Em fase notável como cantor, ele também fazia shows artísticos pela Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco, em circos, cinemas e casas de espetáculos, com a Banda Voou, integrada por Durvalino Santana, Caroço de Arroz, Maria Helena, Almir Bonfim e Aurino Rios.
Sempre criativo e inovador, com muitas atrações no Show da Tarde, para muitos o “Chacrinha de Feira”, honrosa alusão a Chacrinha, o maior comunicador do rádio e da tevê no País, Silvério Silva passou a se apresentar na TV Itapoan, onde fez muitos amigos e surgiu a ideia da Corrida de Jegues, mas de uma forma bem diferente: “A ideia inicial era fazer a corrida na praia, em Salvador, o que seria algo absolutamente incomum, por se tratar de uma capital e colocar muares para correr na praia”, relata. Mas não foi possível e, em 1975, ele concretizou o projeto com a I Corrida de Jegues de Feira de Santana, realizada na Avenida Getúlio Vargas.
A principal avenida da cidade havia passado pelo processo expansionista, com a abertura da pista, mas, a partir do EMEC em diante (sentido Contorno), não havia edificações. O amplo espaço era utilizado para a instalação de circos e para babas de futebol. O evento, em 1975, com a força da propagação pela Rádio Sociedade de Feira e o indiscutível sucesso do comunicador, foi algo difícil de ser mensurado. Milhares de pessoas — a maioria por curiosidade — compareceram à Avenida Getúlio Vargas, surgindo uma nova concepção de festejo popular, até então só concebido pela Micareta.
O estrondoso sucesso, que surpreendeu o próprio idealizador, ecoou no País inteiro e praticamente obrigou-o a incluir a corrida na sua programação anual de eventos. A indiscutível força do rádio OM (Onda Média) — atual AM (Amplitude Modulada) — levava a voz de Feira de Santana aos mais distantes recantos do País e fora dele. A festa continuava ano a ano, atraindo maior público. Em algumas oportunidades, mesmo debaixo de chuva, a corrida foi realizada sem perder o brilho, tornando-se até mais atrativa.
E as pessoas se divertiam a partir do nome de alguns animais divulgados nas emissoras de rádio, tevê e jornais da Bahia e de outros estados. Caprichoso, Nataka Tuxia, Chupãozinho e Tororó, Salário Mínimo, Chuveiro, Chibata de Ouro, Chupa Toda, Parlamentar, Tua Noiva, Você, Rapariga de Teu Pai, Tua Tia, Viúva Alegre, Eleitor, Todo Enfiado, Lhe Cobre, Chega Fundo, Só Xota, Mocinha foram alguns dos animais que fizeram a alegria do povo nas corridas, cuja programação ocupava dois dias: sábado e domingo. No primeiro dia, havia desfile dos animais no centro da cidade, a partir das 10 horas, e às 20 horas a “lavagem do jegue”, coroação da rainha da festa pelo prefeito da cidade e show musical. No domingo, atrações folclóricas e shows musicais das 8 às 14 horas. Daí em diante ocorriam: corrida de porco ensebado, corrida de mulheres com sapato alto, desfile do jegue-trio. Às 16 horas, a corrida de jegues, e às 18 horas o grande baile de encerramento.
Em 1986, a XI Corrida, realizada em novo local, a Estação Nova, debaixo de muita chuva e com a presença de um público surpreendente, devido ao mau tempo, foi ganha pela veloz “Tua Noiva”, mas as homenagens do público voltaram-se para dona Umbelina, de 102 anos de idade, vinda do município de Queimadas, que ficou na décima colocação montando “Fafá de Belém”. Ela cumpriu toda a prova com o apoio e o aplauso da multidão. Na VII Corrida, realizada na Avenida Anchieta, a maior atração foi o casamento do jegue Magé da Pindoba com a “comprometida” Daria do Fundão. A “noiva” apareceu vestida de branco, com véu e grinalda, e o noivo, muito garboso e elegante, trajando preto, com capacete de operário. O público, respeitosamente, fez silêncio na hora da solenidade e depois explodiu de alegria, mas vaiou “Lhe Cobre”, declarado vencedor da Corrida.
Em 2009, após 34 anos, a Corrida de Jegues de Feira de Santana foi realizada pela última vez em um terreno ao lado do Shopping Boulevard, para onde fora mudada devido ao acelerado crescimento urbano da Princesa. Dezessete anos depois, Silvério Silva não esconde a saudade e também como seria bom se pudesse voltar a realizar a Corrida, que se tornou uma atração nacional. “Todos os grandes jornais do País e programas de televisão, como o Jornal Nacional e o Fantástico, da Rede Globo, bem como emissoras de fora, como dos Estados Unidos e do Japão, cineastas e estudiosos, aqui estiveram. Várias outras cidades do Nordeste passaram a fazer corridas”, observa.
Embora, nas mais de três décadas da Corrida de Jegues, a cidade tenha se tornado uma pujante metrópole, mudando seu ritmo de vida, ele não atribui a isso o fim do evento, e sim aos custos. No início, na década de 1970, ele conseguiu o patrocínio no Sudeste do Brasil, com empresas como a Singer, a Grundig e a Motorádio, além de fortes firmas locais que já não existem. Em 2009, último ano da Corrida de Jegues, ainda houve o apoio do prefeito Tarcízio Pimenta, mas ele entende que hoje isso seria insuficiente.
“Houve um aumento de custos gigantesco. Hoje, para trazer uma atração artística de nome e montar a estrutura para um evento desses, só se contássemos com o apoio oficial dos governos municipal e estadual, e ainda de mais algumas grandes empresas. Não vejo condição de voltar à Corrida de Jegues. Gostaria, mas tudo passa”, diz o comunicador, que em 2026 comemora 63 anos de atividade e continua liderando audiência em Feira de Santana, aos domingos, na Rádio Sociedade, com o Programa Silvério Silva.
Por Zadir Marques Porto
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Foto: Divulgação – Arquivo ZMP


