
Desde que começou em 1937, a festa tem mudado de local, por conta do seu crescimento, e sofrido alterações no seu conteúdo, de acordo com as mutações da vida social e acontecimentos temporais. E foi assim que, em 1970, a festa ganhou três cores, em homenagem ao Fluminense de Feira, campeão baiano de 1969. Durante quatro dias, o folião e a cidade foram tricolores.
Nascida em Feira de Santana em 1937 e ‘adotada pelo mundo’, a Micareta – festa genuinamente feirense – jamais perdeu sua identidade ao longo dos anos como evento democraticamente popular, embora sofrendo adequações naturais, notadamente em relação ao espaço físico ocupado, temas musicais, trajes e personagens. No início, era mesmo uma festa de rua, com a presença da família feirense, com desfiles de rei e rainha, realizados na Rua Direita (Rua Conselheiro Franco).
Com o rápido crescimento, o festejo foi direcionado para as praças da Bandeira e J. Pedreira, e, com a mesma celeridade de ocupação dos espaços da ‘feira livre’, correu para a Avenida Senhor dos Passos. Depois, oficialmente, foi transladada para a Avenida Getúlio Vargas, e desta para a Avenida Presidente Dutra, onde está, embora não sejam raras as notícias sobre uma outra provável mudança do designado ‘sítio da festa’. A musicalidade também mudou muito. No início, marcada pela ingenuidade e singeleza, cantavam-se marchinhas de autores feirenses.
O advento do tri-elétrico (apenas instrumental) alterou bastante o cenário da festa, que mudaria ainda mais com a presença de cantores nos trios. As marchinhas de autores locais cederam lugar aos sucessos do Carnaval carioca, até hoje incomparáveis. Por fim, veio a fase da música que roteiriza o Carnaval de Salvador. A Micareta, que começou nas ruas, nos anos 40 do século passado, durante a II Guerra Mundial, foi realizada nos salões da Filarmônica 25 de Março, na Rua Direita (Conselheiro Franco), e voltou às ruas logo após, estabelecendo dois tipos de festejo com o surgimento do Feira Tênis Clube e o Clube de Campo Cajueiro.
Com a extinção de ambos, os frequentadores de agremiações sociais hoje ocupam grandes camarotes na área nobre da festa, como sucedâneos dos clubes. Todavia, no que pese as mudanças ocorridas ao longo dos anos, e aí não incluímos os grandes bailes que precediam o evento, os desfiles de fantasias e concursos, a Micareta de 1970, ainda na Rua Direita, pode ser considerada especial, sobressaindo-se das demais pela sua temática.
No dia 5 de outubro de 1969, o Fluminense de Feira de Santana conquistava em Salvador, pela segunda vez na década, o título de campeão estadual, o que gerou grande festa na cidade com volumosa recepção da vitoriosa comitiva tricolor a partir do antigo posto de combustíveis Shangay, na BR-324. Foi a chamada pré-micareta, quando a comissão organizadora da festa definiu que, em 1970, o título seria comemorado durante quatro dias, e assim o ocorreu.
Com trios elétricos, escolas de samba, batucadas, blocos e foliões usando majoritariamente o verde, vermelho e branco do Touro do Sertão, o folião repetia: “Fluminense bravo, Touro pioneiro / alegria da torcida tricolor. Entre os clubes da Bahia, o primeiro / no gramado tu és sempre o vencedor…” – hino oficial do clube, de autoria do cantor/compositor Antônio Moreira – transcorreu com enorme e justificada alegria a inesquecível Micareta de 1970, ou a Micareta Tricolor. A maior festa carnavalesca do país, fora do calendário oficial de Momo, continua, mas até hoje, 55 anos depois, nunca mais o feirense teve motivo para brincar com tanta alegria e emoção: “… tua glória merecida e honrada / em três cores ostenta tua fibra…”. Nunca mais um título do Fluminense, e, naturalmente, nunca mais uma Micareta Tricolor!
Por Zadir Marques Porto




