
Uma cidade jovem, com um crescimento incomum, que chamava atenção do país pela feira-livre, a feira do gado e o comércio vibrante. Uma comunidade de paz, onde se dormia cedo e o aguadeiro era figura indispensável, mas havia o lacerdinha, o inimigo número um da população!
Com cerca de 70 mil habitantes na sede, de uma população municipal estimada em 140 mil habitantes, no final da década de 1950, Feira de Santana vivia a plenitude de uma cidade próspera que apostava no futuro, mas ainda se debruçava na ingenuidade do passado recente, marcado pela histórica origem das enormes boiadas, dos coronéis e das fortes lideranças políticas que tinham o mando social. A vida era amena, com a presença dos indispensáveis aguadeiros nas ruas centrais, fornecendo água potável aos moradores. Mas, como nada é perfeito, havia os terríveis lacerdinhas que incomodavam os feirenses e os visitantes.
Da parte leste da cidade, a água famosa era do Ponto Central, bairro que abrangia grande área, onde hoje estão localizados o Feira Palace Hotel, o EMEC e todo o derredor. Na zona oeste, o bairro Tanque da Nação, cravado na baixada do Quartel da Polícia Militar (antes Hospital Dom Pedro de Alcântara), concorria com água de igual qualidade. Os burricos carregados com os recipientes de madeira ou de ferro — já que alguns aguadeiros usavam túneis — circulavam a partir das 7 horas até o início da noite. A água encanada, que era um entrave para o desenvolvimento da cidade, foi implantada em 1955, mas, durante algum tempo, os aguadeiros continuaram em atividade. A pequena rede de abastecimento foi crescendo gradativamente. No início, era limitada à parte central da cidade, onde estavam as famílias mais abastadas e o comércio.
A lata de água custava caro e, assim, em vários pontos da Princesa, muitas famílias utilizavam a água de cisternas — poços cavados nos quintais —, na maioria dos casos considerada “leve, de boa qualidade e perfeitamente bebível”. E mesmo quando o veio era considerado salobro, a água era utilizada para banhos, lavagem de roupa e usos domésticos em geral. A vida citadina até os dias iniciais da década de 1960 era absolutamente oposta à dos tempos atuais. Não havia vida noturna, já que às 21 horas (9 horas a cidade dormia), com pequenas exceções de notívagos encarados com pouca simpatia. As crianças deviam deitar às 19 horas (7 horas). Ainda sem a televisão, a gurizada limitava-se ao “esconde-esconde”, jogo de peteca, baleado e futebol nas ruas. As meninas cuidavam das bonecas.
Nos finais de tarde, os babas eram um “compromisso” inadiável para a garotada nos incontáveis campos de areia. Nas segundas-feiras, a cidade crescia com a feira-livre nas praças da Bandeira e João Pedreira, reunindo milhares de pessoas deste e de outros municípios da região, numa movimentação de compra e venda capaz de encher os olhos de qualquer visitante. E, mesmo muito distante de conhecer computadores, vídeos, celular, marketing, merchandising, neon, Black Friday e outras novidades, o comércio despontava com extraordinário vigor, como uma árvore plantada em terreno fértil e bem irrigado.
Nas lojas e armazéns não havia cartão, Pix, nem mesmo crediário; havia a confiança entre vendedor e freguês. As compras eram anotadas em papéis, cadernetas e fichas (que já eram novidade), com datas para o pagamento. Mal pagador não deixava de existir, mas não era comum, e quem assim procedesse estava fadado ao descrédito total no comércio. Ainda não havia supermercados, nem as gigantescas lojas atuais. Não havia os golpes pela internet e pelo celular. A política nacional não estava polarizada, a jovem Princesa dormia cedo para levantar cedo e se agigantar na caminhada para o seu brilhante presente — e só havia algo que quebrava esse clima de encantamento: os lacerdinhas!
Esses pequeninos insetos, que proliferaram de forma vertiginosa na cidade, não se sabe exatamente como, alojavam-se como verdadeiros exércitos nas árvores e “atacavam” a população com alvos determinados: os olhos. Um ardor terrível colocava o atingido “fora de combate”. Gostavam também de se emaranhar nos cabelos e, de todo modo, eram inoportunos. Por causa dos lacerdinhas, belos oitizeiros que ornamentavam praças da Princesa do Sertão, considerados o habitat desses insetos, tiveram de ser sacrificados. Com a dizimação de várias árvores e o uso de produtos químicos durante bom tempo, a praga desapareceu sem deixar saudade, pelo contrário! Nesses mais de 60 anos transcorridos, as mudanças ocorridas no planeta foram enormes e abrangentes em todas as áreas, e Feira de Santana não se permitiu desconhecê-las ou ficar distante delas.
No tempo do Pix, dos “golpes” da IA e tantas outras coisas, falar dos aguadeiros, da monumental feira-livre no centro da cidade, da feira do gado igualmente portentosa, de dormir às 21 horas e do terrível lacerdinha pode parecer despropositado, mas é uma maneira de lembrar uma interessante etapa da história, dimensionando o passar das décadas na Princesa do Sertão!
Por Zadir Marques Porto




