
Em 1977, com a inauguração do Centro de Abastecimento, acabou a maior feira-livre do País. Isso todos sabem, mas nem todos conheceram o âmago deste quase inimaginável comércio a céu aberto, pontilhado de personagens, verdadeiros astros de um cenário que não mais se repetirá.
‘Manoel Come Fogo’, e comia mesmo, tanto que faleceu de uma maneira que foi atribuída ao perigo a que ele, como camelô, se submetia para alavancar as vendas na monumental feira-livre da Cidade Princesa, nos anos da década de 1960. Manoel dos Santos, o ‘Manoel Come Fogo’, casado com dona Maria Santos, residia no bairro da Queimadinha — naturalmente, na época, muito diferente do que é atualmente — e fazia parte de um grupo de trabalhadores itinerantes que se apresentavam em feiras-livres como camelôs, propagandistas, cordelistas, repentistas, raizeiros, vendedores de remédios, folheteiros, poetas populares, faquires, enfim, algo que pudesse garantir “o dinheiro do pão de cada dia”, como era dito.
Também era chamado de ‘Manoel da Esquina’, já que no vocabulário próprio desses artistas populares ‘esquina’ significa o mirabolante comércio de produtos de pouca qualidade que eles ofereciam. Manoel vendia sabonete, sabão e outros itens e, para atrair o público, majoritariamente pessoas da zona rural e municípios da região, ‘comia fogo’. Ele colocava fogo em um cordão embebido em querosene, levado à boca, e expelia fogo, causando enorme reação no público que se acotovelava para vê-lo em ação. Alguns corriam, outros ficavam extasiados, mas também havia descrentes, para os quais aquilo não passava de um truque.
Como o bom vendedor ‘não pode passar em branco’, Manoel valia-se da natural polivalência para exercer a atividade no meio da feira-livre. Como um faquir, deitava-se em uma peça de madeira cheia de pregos ou sobre vidros estilhaçados e mandava alguém subir sobre seu tórax, sem nada sentir nem apresentar ferimentos. Moreno, estatura mediana, fisicamente forte, Manoel mandava alguém amarrá-lo com firmeza, sob a observação do público, e em poucos minutos (média de três minutos) estava livre das cordas. E, se nada ajudasse a vender seus produtos, o camelô partia para o ‘axé’, que significa entre eles ‘pedir’ ao público, e isso só é feito em último caso, com absoluto constrangimento.
Esse tipo de arte também era praticado por outros camelôs e propagandistas na feira-livre das segundas-feiras, tendo como um dos principais ‘palcos’ a Praça da Bandeira, próximo ao Abrigo Predileto, e que, com a rápida expansão da feira, ganhou notoriedade na Avenida Getúlio Vargas, aproximadamente onde está o Relógio do Rotary. “Ali havia uma ampla banca de Miguel das Ervas, onde eram vendidas variedades, e ele colocou um grande banco de madeira, onde os repentistas, cordelistas, violeiros, circenses e propagandistas se reuniam. O povo acorria atraído por essas coisas, isso uns 60 anos atrás”, destaca o cordelista Jurivaldo Alves, que também viveu essa realidade, desaparecida com o tempo.
Ele lembra vários outros propagandistas e artistas populares que faziam a feira-livre de Feira de Santana muito mais que um local de vendas. “Havia um vendedor que arrastava um automóvel amarrado aos cabelos. Ele raspava o cabelo nos lados, acima das orelhas, e deixava bem longo atrás, onde era amarrada uma corda e presa ao para-choque do automóvel. Ele caminhava arrastando o veículo”. Outro nome de prestígio popular era ‘Paraíba’, como era conhecido José Batista, devido à sua naturalidade. Apesar de alto e magro, aparentando fraqueza física, descascava um coco seco com os dentes em minutos e furava um coco seco com um dedo.
Nessa profusão de verdadeiros artistas entre camelôs e vendedores populares esteve, e poucos sabem, Rodolfo Coelho Cavalcante, considerado o maior cordelista baiano, apesar de alagoano de nascimento. Ele residiu em Feira de Santana e sempre fazia aqui o lançamento dos seus livros, alguns dos quais ficaram famosos e até hoje são procurados. Um detalhe é que Rodolfo Cavalcante, antes do cordel, havia sido “Pirulito”, um destacado palhaço de circo, e, para vender seus cordéis na feira-livre, além de declamá-los muito bem, surpreendia. “Ele chegava de terno completo, elegante, com três livros em uma das mãos e declamava um deles de cabeça. De repente, jogava o paletó no chão com os cordéis e se transformava num palhaço, era muito bom”, diz Jurivaldo.
Bem-humorado, o cordelista diz que deve ao falecido Rodolfo Cavalcante seu casamento com dona Maria do Carmo. “Foi em 1973. Rodolfo lançou o cordel ‘E a Terra Brilhará Outra Vez. A Vinda do Cometa Kohoutek’. Vendi cordel lá em Juazeiro e região como se vende água no deserto; assim pude me casar”, lembra. Mas a anunciada ameaça do cometa, que terminou passando longe da Terra, criou um clima de terror, ressalta.
“Na época, passou um avião a jato em Juazeiro, deixando aquela faixa, ou esteira, no céu. Foi um horror: quem estava devendo correu para pagar, quem estava comprando saiu sem pagar, quem estava orando saiu sem orar, quem não estava orando correu para orar, quem estava pescando jogou os peixes no rio, quem havia brigado foi pedir perdão, uma confusão danada”, relata, bem-humorado, Jurivaldo Alves. E, ainda falando sobre artistas populares que viviam o cenário da feira-livre, ele cita Ubirajara.
“Era nordestino, como tantos outros. Era repentista, cantor, declamador, astrólogo, teve um programa na Rádio Sociedade de Feira de grande sucesso. Na verdade, era um intelectual que vivia entre as pessoas simples e deixou a feira-livre de Feira de Santana para ser assessor político de Paulo Maluf, em São Paulo. Por aí é possível avaliar sua capacidade”. Jurivaldo lembra produtos que os camelôs fabricavam para vender, como sabonetes, óleos, remédios, pomadas, bebidas, doces, com fórmulas próprias e criativas que davam certo e eram procuradas pelo povo. Conclui com uma máxima realista e fundamental da categoria, hoje quase extinta: “Camelô bom é aquele que vende o que não presta!”.
Por Zadir Marques Porto


Foto: Divulgação – Arquivo ZMP



