Marcone Leão, o melhor locutor comercial do rádio feirense, tem saudade do microfone

Nascido em Campina Grande – Paraíba – e, desde os sete anos de idade, radicado em Feira de Santana, ele lembra os bons tempos no rádio feirense, lamenta o desaparecimento de instituições que viu nascer, relata um fato interessante relacionado à história de Lucas da Feira, fala sobre seu trabalho como tradutor e do ritmo da vida atual, mas não esquece a terra natal, da qual se envaidece pelo progresso que ostenta.

Em 1964, ele ganhou o título de “Melhor Locutor Comercial do Rádio Feirense” e, dentre outros prêmios, recebeu um microfone de lapela da empresa italiana RAI, entregue pelo frei Aureliano de Grottamare, diretor da Rádio Sociedade de Feira. Vale lembrar que a emissora, através da Onda Curta, era ouvida em vários países da Europa, como Suécia, Dinamarca, Noruega e Itália, fato comprovado pelas cartas recebidas com elogios de ouvintes do distante Velho Mundo. Hoje, aos 88 anos de idade e há muito tempo afastado do rádio, o paraibano de Campina Grande, Marcone Vidal Leão – ou Marcone Ferreira Leão, como ficou conhecido – lembra, saudoso, o convívio radiofônico da época e da Princesa do Sertão como a conheceu 80 anos atrás.

Marcone Leão chegou a Feira de Santana aos sete anos de idade, em 1944, e passou a residir no final da Avenida Senhor dos Passos, onde seu pai, Abel Leão, instalou a Pensão Paraibana em um imóvel amplo, onde hoje funciona uma loja de doces. Assim, pôde acompanhar de perto o crescimento daquela área: “Eu vi nascer o Cinema Íris, o Abrigo Nordestino e o Bar e Restaurante RM, que ficava em frente ao Feira Tênis Clube”. Lembra que, quando garoto, gostava de observar o operariado trabalhando na construção dessas três instituições, que já não mais existem, e lamenta: “Eu vi nascer e morrer o Íris, que hoje poderia ser um teatro, o Abrigo Nordestino e o Bar RM”.

Apaixonado por sua terra, Campina Grande, ele exibe um álbum com belos registros fotográficos da moderna capital da Paraíba e lamenta que Feira de Santana não preserve a sua história, observando que belos prédios residenciais da Avenida Senhor dos Passos, da época dos “coronéis” – como então eram titulados os homens abastados da cidade –, deram lugar a lojas e estacionamentos.

Com memória muito boa, Marcone revela que, quando chegou em Feira de Santana, podia observar do alto do prédio da Pensão Paraibana a área onde foi construído o Abrigo Nordestino (Praça Dom Pedro II), e “ali na esquina que leva ao Casarão Fróes da Mota, tinha um buraco, onde, segundo se dizia, tinha sido sepultado Lucas da Feira. Recordo que, sempre ao final da tarde, três pessoas negras chegavam ali levando flores e faziam orações”.

Sobre o assunto, ele se reserva em falar mais, já que só tinha sete anos e pouco sabia da história da cidade. Ainda muito jovem, além de estudar e começar a trabalhar em uma oficina mecânica, tornou-se um frequentador constante do Cine Íris, ao que atribui o seu gosto pelo cinema, à música orquestrada e ao idioma inglês, do qual se tornou tradutor profissional.

Em 1964, conheceu Edmundo de Carvalho Júnior – Palito –, renomado narrador esportivo, amizade que mudou sua vida. “Eu estava aqui onde moro, há mais de 60 anos – Rua Professor Geminiano Costa –, quando Edmundo me convidou para trabalhar na Rádio Sociedade. Eu não pensava nisso, mas fui, fiz um teste com o diretor Araújo Freitas, fui aprovado e comecei a trabalhar”.

Na época, o rádio contava com os locutores-apresentadores, os noticiaristas, os narradores e os locutores comerciais. Os textos das propagandas (anúncios) eram lidos por locutores, já que as gravações eram raras, e os jingles (propaganda gravada) só quando enviados por empresas do Sul/Sudeste do país. Marcone Leão destacou-se no segmento da locução comercial, consagrando-se como o melhor de 1964. Depois, tirando proveito dos conhecimentos de idiomas, gravou o prefixo da Rádio Sociedade de Feira em português e inglês. Rodado a cada meia hora como identificador da emissora, o prefixo bilíngue fez enorme sucesso. Confidencia que, no início da vida radiofônica, inspirava-se em um famoso noticiarista da época, mas isso não lhe tirou a naturalidade.

Na Rádio Sociedade, ele lembra que atuou ao lado de valores destacados da época, como Dudinha, Itajay Pedra Branca, Dourival Oliveira, Paulo Alves, Aristides Oliveira, Francisco Almeida, Edival Souza, Francisco Mário do Nascimento (Chico Baiano), Júlio Soares, Milton Hiroshy Watanabe, dentre outros, e como locutor comercial em diversos programas, destacando o “M. Portugal e a Sociedade”, que era apresentado aos domingos pelo famoso colunista social M. Portugal e tinha enorme audiência junto ao público considerado classe A, pelo maior poder econômico.

A partir de 1968, com a inauguração da Rádio Carioca de Feira de Santana, emissora do Rio de Janeiro – hoje Rádio Povo –, Marcone Leão atuou como noticiarista até por volta do início de 1970. Deixando o rádio, trabalhou em empresas como a Mafrisa, a Pneus Tropical, a CERB e a Universidade Estadual de Feira de Santana, sempre priorizando o inglês. Com satisfação, ele mostra um documento emitido pela professora de Inglês da UEFS, Silvânia Carvalho Cápua, atestando que coube a ele traduzir, pela primeira vez para o português, o livro de Dominique Lacaora “History Criticism” (Crítica à História).

Casado em 29 de junho de 1964 com a professora Rita Lopes Leão, pai de três filhos (duas mulheres e um homem) e já bisavô, ele espera comemorar Bodas de Platina (65 anos de matrimônio). Como passatempo, a leitura – inclusive revistas e livros em inglês –, música orquestrada – tem cerca de mil LPs, um bom número de CDs, centenas de filmes, a maioria de guerra – e a companhia de Galego, o gato de estimação, verdadeira sombra acompanhando seus passos dentro de casa. Na lembrança, colegas de rádio – a maioria já no plano espiritual – e o amor por Campina Grande, que a longa vivência na Princesa do Sertão não o fez esquecer.

Por Zadir Marques Porto

Fonte: Prefeitura de Feira de Santana

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