
O Núcleo de Preservação do Patrimônio de Vitória da Conquista visitou o Seminário Nossa Senhora de Fátima – complexo religioso pertencente à Ordem dos Frades Capuchinhos Menores e localizado no bairro Brasil, para dar início às tratativas de tombamento do templo e das edificações anexas. Considerado um dos principais pontos religiosos da cidade e o mais representativo da Zona Oeste, o seminário passa por um estudo técnico e um processo de tombamento que visa garantir proteção legal e manutenção de suas características históricas e arquitetônicas.
Marco da formação do bairro Brasil
Fundado entre as décadas de 1940 e 1950 por frades capuchinhos italianos em missão à cidade, o Seminário e a Paróquia Nossa Senhora de Fátima foram determinantes para a formação do bairro Brasil, que acabou se tornando o mais populoso de Vitória da Conquista. A instituição serviu não só como referência religiosa, mas também como polo de assistência social para migrantes e operários que se estabeleceram na região, contribuindo para a configuração social e urbana do território.
Do seminário surgiram personalidades marcantes na história local, como frei Miguel Serafini, Frei Graciano de Sant’elpídio, Frei Serafim do Amparo e Frei Benjamim de Vilagrande — este último responsável pelo projeto e pela edificação do templo, cujo reconhecimento rendeu a homenagem da avenida que leva seu nome.
Após mais de 60 anos e intervenções ao longo do tempo, a Igreja Nossa Senhora de Fátima e Santo Antônio de Lisboa prepara‑se agora para ajustes estruturais e para a restauração de elementos originais. O pároco, frei Gleizer Campinho, juntamente com os arquitetos especialistas em arquitetura sacra e arte litúrgica, Robson Gabriel e Romolo Ronchetti, iniciaram esta semana os estudos técnicos que embasarão o processo de restauração.
Na reunião, o pároco manifestou entusiasmo com a iniciativa e autorizou o acompanhamento do Núcleo de Preservação ao processo de restauração da igreja. Frei Gleizer destacou o simbolismo arquitetônico do templo: “A nossa igreja aqui do seminário tem o formato octogonal. O frei Benjamim se inspirou nos primeiros batistérios do início do cristianismo, capelas onde as pessoas eram batizadas, e trouxe essa tradição milenar para Vitória da Conquista. Isso reafirma a continuidade da nossa fé cristã e a ligação com a memória litúrgica da Igreja.”
Segundo o Frei Gleizer, o seminário é também um “mapa afetivo” da cidade. “Quantos cidadãos cresceram ao redor do seminário, tendo-o como referência para encontros e lembranças. Preservar esse patrimônio é preservar a memória afetiva ativa dos cidadãos, valorizar a cultura e a vida que foram vividas ali com tanta intensidade”, completou o pároco.
O arquiteto Robson chamou atenção para aspectos técnicos a serem recuperados e destacou que as intervenções visam não apenas a segurança estrutural, mas também a integridade estética e litúrgica do espaço. “É necessário recuperar características originais como a acústica e a iluminação do templo, em respeito ao contexto em que ele foi planejado e edificado”, afirmou o arquiteto.
Importância técnica e territorial do tombamento
Rafael Celino, membro do Núcleo de Preservação do Patrimônio, ressaltou a intenção de estender o trabalho de preservação a outras áreas da cidade e enfatizou o recente trabalho que resultou no tombamento de seis imóveis avaliados no estudo técnico elaborado pelo Núcleo no ano passado. “Trata‑se de um equipamento importante para o desenvolvimento urbano da nossa Zona Oeste, especialmente para o bairro Brasil. Está inserido na dinâmica atual da comunidade e foi caracterizado como imóvel de relevância histórica para preservar a memória do município”, disse Celino.
- Frei Gleizer Campinho
- Rafael Celino
Edifícios tombados em 2025
Sede da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista – inaugurado em 1921, o antigo Quartel da Polícia Militar e sede da Prefeitura desde a década de 1960 é um dos marcos da Arquitetura Eclética no município, preservando integralmente seus traços originais.
O imóvel é também um registro do trabalho do mestre de obras Luiz Alexandrino de Melo (Luiz Pedreiro), cuja técnica contribuiu para moldar o perfil urbano de Vitória da Conquista no início do século XX. O edifício simboliza a consolidação política e administrativa do município.
Edifício da antiga Câmara de Vereadores (atual Memorial Manoel Fernandes de Oliveira) – Construído em 1910, o imóvel foi originalmente residência do Coronel Manoel Fernandes dos Santos Silva (Maneca Santos), figura importante da economia local. Posteriormente, abrigou o Hotel Central, o Fórum Municipal e a Justiça do Trabalho, antes de sediar, na década de 1960, a Câmara de Vereadores. Hoje, transformado em Memorial Manoel Fernandes, o prédio representa a trajetória institucional e política de Vitória da Conquista.
Casa das Artes (antiga Biblioteca José de Sá Nunes / atual Centro de Convivência do Idoso) –Datado de 1924, o casarão abrigou a primeira Biblioteca Municipal, sendo um espaço emblemático de acesso ao conhecimento e à cultura. O edifício acompanhou a expansão intelectual da cidade nas primeiras décadas do século passado e, até hoje, mantém sua vocação comunitária e educacional ao sediar o Programa Municipal Vivendo a Terceira Idade.
Solar dos Fonsecas –Exemplar de destaque do estilo neoclássico, o Solar dos Fonsecas é reconhecido por sua simetria, ornamentação refinada e pinturas internas de valor artístico. A obra também é associada ao mestre Luiz Pedreiro, reafirmando sua importância na formação estética da cidade. O casarão é um dos últimos exemplares inteiramente preservados do início do século XX.
Solar dos Ferraz –Com traços da arquitetura de inspiração portuguesa e linhas neoclássicas no frontispício, o Solar dos Ferraz está ligado à história de famílias tradicionais e ao surgimento do núcleo urbano central. Considerado o exemplar mais completo do estilo regional, o casarão também tem autoria atribuída a Luiz Pedreiro e simboliza o refinamento arquitetônico da época.























