Centro da cidade, coração da Princesa e, como em outras vias da zona comercial, o corre-corre permanente. Mas será que sempre foi assim ou esse panorama difere do que era antes? Evidente, e não foi há tanto tempo assim. A Avenida Senhor dos Passos das mansões, da plácida vida social, do silêncio noturno, do trânsito quase zero e dos esquisitos postes da rede elétrica ficou para trás na “Feira antiga”, mas não tão antiga assim que possa ser esquecida!
Os postes de ferro da rede de energia elétrica, na sua magreza solitária, pareciam ainda mais altos, no centro da via, tendo a base circundada por canteiros gramados, alguns deles com arbustos. O piso, pavimentado com pedras, era bem limpo — salvo nas segundas-feiras, devido à feira livre na Praça João Pedreira e Praça da Bandeira, e nas terças-feiras, quando ainda se processava a limpeza do centro da cidade. O movimento de veículos, incluindo-se as marinetes (antecessoras dos ônibus), era pequeno, às vezes demorando bastante para ocorrer a passagem de dois carros em sequência.
Era assim a Avenida Senhor dos Passos no final da década de 1930 e grande parte dos anos da década subsequente. Os grandes e belos prédios residenciais davam uma indiscutível aparência de nobreza, mas de uma maneira natural, como se todos ali vivessem bem, sem qualquer espécie de problema. Típico da época, as portas das mansões eram abertas para eventos sociais. O cenário do centro da Princesa — e pode-se dizer de toda a urbe — começou a mudar de forma acelerada a partir de meados da década de 1940, quando governava o município o prefeito Heráclito Dias de Carvalho (1938/1943).
A construção dos currais-modelo e a pavimentação das praças da Bandeira e João Pedreira, da Avenida Senhor dos Passos, Rua Capitão França e Praça dos Remédios representaram um significativo avanço para a comunidade, com estimados 83 mil habitantes. O início da construção da rodovia Rio-Bahia e a instalação da primeira escola noturna de Feira de Santana, somados aos eventos anteriores, contribuíram para a aceleração do ritmo de vida citadino. Na rápida gestão de Eduardo Fróes da Mota (1944), ocorreu a inauguração do Feira Tênis Clube, que trouxe para a sociedade uma nova forma de se reunir para comemorações e eventos. Vale observar que o FTC foi uma iniciativa de cidadãos locais, nada tendo a ver com a administração pública.
Mas, ainda em relação à estrutura da Avenida Senhor dos Passos, a instalação do Cine Teatro Íris, no final do logradouro, e posteriormente do Cine Santanópolis, vizinho ao prédio da Prefeitura, deram um quase ultimato à charmosa avenida estritamente residencial. A Casa OK e a Farmácia Campos, ao lado da Igreja Senhor dos Passos, apontaram para o futuro imediato: a transição. Novos estabelecimentos comerciais e de serviços foram empurrando as famílias para fora do coração da cidade, num processo de caráter irreversível que permanece, distanciando cada vez mais a população.
Olhando fotos antigas, é possível visualizar com saudade a Feira daquele tempo, cuja imagem física se dilui com a contagem dos dias, meses e anos. Mas esse processo de esvaziamento do centro urbano é considerado normal, atingindo a maioria das grandes cidades. No caso de Feira de Santana, o que pode diferenciá-la de outras cidades é a rapidez do processo. Circulando pela Senhor dos Passos, quem a conhece agora dificilmente irá imaginá-la com a nobreza dos seus belos residenciais, grandes jardins, enormes quintais com árvores frutíferas e, principalmente, os postes de ferro — como fantasmas — a decorar uma avenida sem carros!
Por Zadir Marques Porto




