A Rússia e os Estados Unidos (EUA) não estão mais sujeitos a quaisquer limites quanto ao tamanho de seus arsenais nucleares estratégicos após seu último tratado de controle de armas expirar, nesta quinta-feira (5), sem um acordo entre eles sobre o que deve acontecer a seguir.
O tratado Novo Start, que estabelecia limites para os mísseis, lançadores e ogivas estratégicas de cada lado, era o último de uma série de acordos nucleares que remontam a mais de meio século, no auge da Guerra Fria.
Especialistas em segurança dizem que o fim do acordo leva ao risco de nova corrida armamentista, que também será alimentada pelo rápido aumento nuclear da China.
O presidente russo, Vladimir Putin, propôs que Moscou e Washington concordem em aderir às principais disposições do tratado por mais um ano, mas o presidente dos EUA, Donald Trump, não deu nenhuma resposta formal.
Trump afirma que deseja um acordo melhor, que também inclua a China. Mas Pequim se recusa a negociar com os outros dois países porque tem apenas uma fração do número de ogivas deles — cerca de 600, em comparação com cerca de 4 mil da Rússia e dos EUA.
Em nota, na noite dessa quarta-feira (4), horas antes de o Novo Start expirar, a Rússia criticou o que chamou de abordagem “errada e lamentável” dos Estados Unidos..
Afirmou que a suposição de Moscou agora é que o tratado não se aplicava mais e que ambos os lados estavam livres para escolher seus próximos passos.
“A Rússia continua preparada para tomar contramedidas militares e técnicas decisivas para mitigar potenciais ameaças adicionais à segurança nacional”.
Mas agirá de forma responsável e está aberta à diplomacia para buscar uma “estabilização abrangente da situação estratégica”, informou o comunicado, buscando equilíbrio entre assertividade e moderação, acrescenta a nota.
Trump não fez nenhuma declaração quando o tratado expirou. A Casa Branca disse esta semana que Trump decidiria o caminho a seguir no controle de armas nucleares, o que ele “esclareceria em seu próprio cronograma”.
Armas nucleares estratégicas são os sistemas de longo alcance que cada lado usa para atacar a capital, os centros militares e industriais do outro em caso de uma guerra nuclear.
Elas diferem das chamadas armas nucleares táticas, que têm menor potência e são projetadas para ataques limitados ou uso em campo de batalha.
Na ausência de uma estrutura de tratado que proporcione estabilidade e previsibilidade, analistas afirmam que cada lado terá mais dificuldade em interpretar as intenções do outro. Isso poderia levar a uma espiral em que cada um sinta a necessidade de continuar aumentando seu arsenal, com base nas piores hipóteses sobre os planos do outro.
Em poucos anos, cada país poderia implantar centenas de ogivas, além do limite de 1.550 estabelecido pelo Novo Start, afirmam os especialistas.
“Transparência e previsibilidade estão entre os benefícios mais intangíveis do controle de armas e sustentam a dissuasão e a estabilidade estratégica”, disse Karim Haggag, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.
“Sem elas, as relações entre os Estados com armas nucleares provavelmente serão mais propensas a crises — especialmente com a inteligência artificial e outras novas tecnologias ,adicionando complexidade e imprevisibilidade à dinâmica de escalada e uma preocupante falta de canais de comunicação diplomática e militar entre os EUA, China e Rússia.”
O Ministério das Relações Exteriores da China disse hoje que o fim do tratado de armas é lamentável e apelou os EUA para que retome o diálogo com a Rússia sobre “estabilidade estratégica”.
O fim do tratado Novo Start marca o encerramento de mais de meio século de limites às armas nucleares estratégicas de ambos os lados. A Rússia afirmou, nessa quarta-feira, que estava aberta a negociações sobre segurança, mas que iria combater quaisquer novas “ameaças”.
“A China lamenta o fim do tratado, pois ele é de grande importância para manter a estabilidade estratégica global”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês Lin Jian.
Ele disse que a comunidade internacional está preocupada já que o vencimento do tratado terá impacto negativo no sistema internacional de controle de armas nucleares e na ordem nuclear global.
A Rússia sugeriu que os dois lados continuem a honrar os limites centrais do tratado, e o Ministério das Relações Exteriores chinês pediu a Washington uma resposta construtiva.
“A China pede aos Estados Unidos que respondam positivamente, lidem com os acordos de acompanhamento do tratado de forma responsável e retomem o diálogo sobre estabilidade estratégica com a Rússia o mais rapidamente possível. Esta é também a expectativa geral da comunidade internacional”, afirmou Lin.
O Ministério das Relações Exteriores da China reiterou que adere estritamente a uma estratégia nuclear de autodefesa.
“A China tem aderido consistentemente a uma estratégia nuclear de autodefesa, respeitado a política de não uso primeiro de armas nucleares e assumido compromissos incondicionais de não usar ou ameaçar usar armas nucleares contra Estados não nucleares ou zonas livres de armas nucleares”, disse Lin, acrescentando que a China mantém seu arsenal no nível mínimo necessário para a segurança nacional.
Acrescentou que suas forças nucleares são muito menores do que as de Washington e Moscou e reiterou que não participará das negociações bilaterais de redução de armas entre esses dois países.
“As forças nucleares da China não estão no mesmo nível das dos Estados Unidos e da Rússia, e a China não participará das negociações de desarmamento nesta fase”, declarou Lin.
A Casa Branca disse que o presidente Donald Trump decidiria o caminho a seguir em relação ao controle de armas nucleares, o que ele “esclareceria em seu próprio cronograma”.
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Fonte: Agência Brasil




